O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, alertou nesta segunda-feira (17) que a combinação de juros elevados e maior comprometimento da renda pode agravar a inadimplência no Brasil. Em evento do Santander, ele classificou como preocupante o avanço do endividamento e afirmou que o efeito pode se tornar “exponencial” à medida que os consumidores recorrem a modalidades de crédito mais caras para manter os pagamentos em dia.

Por que os juros continuam em nível restritivo

Para Galípolo, a principal explicação para a Selic elevada está na própria economia brasileira, e não no cenário internacional. O país atravessa um período prolongado de pleno emprego e crescimento apoiado no consumo, enquanto a capacidade de oferta de bens e serviços não acompanha o mesmo ritmo.

Quando a demanda cresce mais rapidamente do que a oferta, as empresas encontram espaço para reajustar preços e a inflação ganha força. Nesse cenário, a política monetária restritiva — com juros altos para desestimular consumo e crédito — funciona como um mecanismo para reequilibrar demanda e oferta.

Crescimento sem produtividade encontra o limite da inflação

O presidente do BC afirmou que não há crescimento sustentável baseado apenas em mais consumo. Sem ganhos de produtividade, que permitam produzir mais com os mesmos recursos, a economia tende a “bater no muro” da inflação.

Na prática, uma expansão sustentada por aumento da demanda, mas sem ampliação da oferta, pressiona preços e impede uma redução mais rápida dos juros. Por isso, Galípolo disse que o BC não está calibrando a taxa para estimular um crescimento puxado por consumo, mas para mantê-la em um patamar contracionista.

Como os juros altos pressionam o mercado de crédito

O alerta sobre a inadimplência está ligado ao uso crescente de linhas emergenciais e caras. Galípolo destacou que muitos brasileiros tratam o limite do cartão como se fosse parte da renda disponível e acabam recorrendo ao crédito rotativo ou a empréstimos sem garantia.

Esse mecanismo pode acelerar o endividamento: juros elevados aumentam o valor das parcelas e absorvem uma parcela maior da renda. Quando o consumidor deixa de pagar, a dívida pode crescer rapidamente, dificultando a renegociação e reduzindo o espaço para novas despesas essenciais.

O que muda após o corte da Selic para 14%

Na reunião de 5 de agosto, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. Mesmo com o corte, a taxa continua em nível elevado e mantém encarecidos financiamentos, empréstimos e operações de capital de giro.

Para quem investe, juros altos tendem a sustentar a atratividade de aplicações de renda fixa, embora um ciclo de cortes possa reduzir gradualmente sua remuneração futura. Na bolsa, a queda da Selic pode aliviar o custo de financiamento das empresas e favorecer ativos de maior risco, mas a inflação persistente limita esse efeito.

Regulação bancária e próximos desafios para o BC

Galípolo também afirmou que o Banco Central precisou ampliar sua atuação na regulação bancária, estabelecendo limites e regras para o crescimento das instituições financeiras e para o uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Sem citar instituições específicas, ele relacionou o tema à educação financeira e ao fato de muitos brasileiros aplicarem em CDBs sem avaliar adequadamente os riscos. O cenário internacional também exige atenção: Estados Unidos, Alemanha e Japão passaram a disputar mais liquidez global, o que pode aumentar a pressão sobre os mercados.

Para consumidores e trabalhadores, o principal efeito imediato é a manutenção de um ambiente de crédito caro e de maior cautela com dívidas. Para investidores, a próxima trajetória da Selic dependerá da capacidade de a inflação desacelerar sem perda relevante de atividade e de a economia ampliar sua oferta por meio de produtividade.

Impacto para a sociedade

A combinação de juros elevados e maior comprometimento da renda pode dificultar o pagamento de dívidas, especialmente para famílias que recorrem ao cartão rotativo e a linhas de crédito sem garantia. A Selic também influencia o custo de financiamentos e empréstimos, além da remuneração de aplicações de renda fixa. O alerta do Banco Central indica que o crédito pode continuar caro enquanto a inflação permanecer pressionada pela demanda.