Bancos como Caixa Econômica Federal, Itaú, Banco do Brasil, Bradesco e Santander identificaram obstáculos adicionais à retomada do crédito imobiliário brasileiro, além do nível da Selic. Executivos afirmam que os juros afetam a demanda, mas gargalos estruturais — como a falta de financiamento de longo prazo, a renda das famílias, a segurança jurídica e a estabilidade das regras — também limitam o crescimento do setor.

Juros pesam, mas não explicam todo o problema

A Selic influencia o custo do dinheiro na economia. Quando está elevada, aplicações de renda fixa tendem a oferecer retornos maiores, e os bancos precisam considerar esse custo ao definir as taxas cobradas nos financiamentos. O resultado costuma ser uma prestação mais alta e uma parcela maior da renda comprometida, o que reduz o número de famílias capazes de assumir um contrato.

Para Gilson Bittencourt, vice-presidente de agronegócios do Banco do Brasil, a taxa de juros afeta a demanda, mas o déficit habitacional elevado mantém forte o interesse pelo imóvel próprio. Flávio Iglesias, diretor do Itaú, avaliou que a questão dos juros está mais relacionada ao momento do mercado, enquanto outros pontos estruturais precisam ser discutidos com o setor.

A falta de recursos de longo prazo limita os financiamentos

O chamado funding — a origem dos recursos usados pelos bancos para emprestar — aparece como um dos principais entraves. Imóveis são ativos de prazo longo, e o financiamento precisa ter fontes estáveis e compatíveis com contratos que podem durar muitos anos. Sem essa combinação, o custo e a capacidade de oferta do crédito ficam pressionados.

A poupança continua sendo uma fonte importante, mas, na avaliação de Bittencourt, não é suficiente para atender à demanda. As Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) ampliaram as alternativas de captação, porém ainda não em escala capaz de resolver o desequilíbrio entre a necessidade de crédito e os recursos disponíveis.

Renda e desigualdade também travam o acesso à casa própria

Inês Magalhães, vice-presidente de Habitação da Caixa, afirmou que não existe uma única solução para destravar o mercado. Para ela, o crescimento precisa ser saudável e resiliente, com moradias adequadas ao perfil da população. Isso exige considerar não apenas a taxa de juros e o funding, mas também a diversificação das formas de financiamento.

A executiva destacou que a renda é tão importante quanto as condições do crédito. Famílias com renda instável ou já comprometida têm mais dificuldade para cumprir a análise de risco e pagar as prestações. Magalhães também apontou uma distribuição de renda mais equilibrada como elemento capaz de fortalecer o setor imobiliário.

Segurança jurídica pode reduzir custos para o cliente

O Itaú também vê entraves na segurança jurídica, na eficiência dos processos e nos custos envolvidos nas operações. Quando contratos, garantias ou procedimentos de recuperação de crédito estão sujeitos a incertezas e demora, as instituições incorporam esse risco às condições oferecidas ao consumidor.

Iglesias afirmou ainda que é importante haver estabilidade regulatória e visibilidade de longo prazo sobre regras de capital e depósitos compulsórios. Com maior previsibilidade, os bancos tendem a ter mais segurança para acelerar a oferta de crédito sem precisar compensar mudanças futuras com custos maiores.

O que isso significa para famílias e investidores

Para quem busca um imóvel, uma eventual melhora nos juros pode ajudar, mas não garante, sozinha, parcelas mais acessíveis nem uma oferta ampla de financiamentos. A evolução dependerá da combinação entre renda, novas fontes de recursos, regras estáveis e processos menos caros e demorados.

Para investidores, o debate indica que o desempenho do crédito imobiliário dependerá de fatores estruturais, e não apenas das decisões do Banco Central sobre a Selic. O próximo passo será acompanhar como bancos, governo e o setor vão ampliar o funding, reduzir custos e criar condições para um crescimento sustentável da habitação.

Impacto para a sociedade

Os obstáculos ao crédito imobiliário podem dificultar o acesso das famílias à casa própria, mesmo quando os juros começarem a recuar. Problemas de renda, custos de processos e falta de recursos de longo prazo podem manter os financiamentos mais caros ou restritos, afetando também a construção civil e a geração de empregos no setor.