Fundos de infraestrutura negociados em bolsa ainda podem oferecer retorno estimado de até IPCA+14% ao ano, com isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas. O potencial está ligado ao desconto no preço das cotas, mas não representa uma taxa garantida: o resultado depende dos papéis da carteira e da variação do fundo no mercado.

Como os fundos de infraestrutura chegam a esse retorno

Os FI-Infras são fundos que investem em debêntures incentivadas, títulos de dívida emitidos por empresas para financiar projetos de infraestrutura. As debêntures e os fundos que aplicam nelas são isentos de IR para pessoas físicas. As cotas dos FI-Infras são negociadas na bolsa, embora os ativos de suas carteiras sejam de renda fixa.

O cálculo do retorno considera o preço pago pela cota e o rendimento médio dos ativos do fundo. Com alguns FI-Infras negociados abaixo do valor patrimonial — estimativa do valor dos ativos da carteira dividido pelo número de cotas —, o investidor pode adquirir exposição aos títulos por um preço menor que esse valor de referência.

Desconto pode ampliar o retorno, mas não fixa uma taxa

O potencial de ganho pode vir tanto do rendimento dos ativos mantidos na carteira, chamado de carrego, quanto de uma eventual valorização das cotas. Se a cotação subir em direção ao valor patrimonial, isso pode aumentar o resultado de quem comprou com desconto. Um estudo citado pela Empiricus Research aponta que os melhores resultados históricos para investidores desses fundos ocorreram em períodos de deságio.

Isso não significa que a cota necessariamente vá se valorizar nem que o investidor receberá IPCA+14%. Esse número é uma estimativa associada às condições atuais dos ativos e ao preço de mercado, não uma promessa de retorno. Como as cotas são negociadas em bolsa, seus preços também podem oscilar.

Por que os descontos apareceram no mercado

Os títulos públicos Tesouro IPCA+ passaram a oferecer taxas abaixo de 8% ao ano mais inflação, embora ainda acima de 7% mais IPCA. No crédito privado, os retornos podem ser maiores porque há risco adicional: empresas podem enfrentar dificuldades para pagar suas dívidas, especialmente em um ambiente de juros elevados por período prolongado.

Os preços das debêntures incentivadas também foram afetados por mudanças na procura. Enquanto havia preocupação com a possibilidade de tributação de investimentos isentos, a demanda por esses papéis aumentou, elevando seus preços e reduzindo o prêmio pago em relação aos títulos públicos. Depois, os spreads — a diferença entre o retorno dos títulos privados e o dos públicos — se ampliaram entre junho e agosto, pressionando os preços. Os descontos continuam atrativos, mas já diminuíram.

Isenção de imposto não elimina os riscos

Além da oscilação das cotas, existe o risco de crédito: se uma empresa da carteira tiver problemas financeiros, pode atrasar ou deixar de pagar suas obrigações. O mercado de crédito privado enfrenta pressões relacionadas ao custo elevado das dívidas, e houve empresas que pediram recuperação judicial ou extrajudicial, situações que podem resultar em calote de títulos.

Essas dificuldades também podem afetar papéis de companhias que continuam saudáveis, pois a piora geral do ambiente tende a reduzir os preços dos ativos. A isenção de IR aumenta o retorno líquido potencial para a pessoa física, mas não protege o patrimônio contra perdas nem transforma o investimento em equivalente a um título público.

O que considerar antes de avaliar o investimento

Para quem investe, a diferença entre o rendimento estimado da carteira e o retorno efetivamente obtido é central. O resultado pode mudar com os pagamentos dos títulos, a situação financeira das empresas emissoras e a cotação das cotas. O lucro eventual na venda das cotas e os rendimentos distribuídos pelos FI-Infras são isentos de IR para pessoas físicas, mas isso não elimina a possibilidade de vender por um preço menor que o pago.

O próximo passo é acompanhar os preços, os descontos em relação ao valor patrimonial e a qualidade de crédito dos ativos de cada fundo. A taxa de até IPCA+14% chama atenção, mas deve ser lida como uma referência ligada às condições atuais do mercado, não como retorno certo ou assegurado.