Com a Selic em 14% ao ano, investir em dólar tende a oferecer um retorno menor do que a renda fixa brasileira no curto prazo, mas pode cumprir outra função: proteger parte do patrimônio contra crises e reduzir a dependência do real. Nos Estados Unidos, os títulos públicos conhecidos como Treasuries pagam atualmente algo entre 4% e 5% ao ano, cerca de 10 pontos percentuais abaixo dos papéis brasileiros.
O retorno do dólar combina juros e variação cambial
Ao investir em renda fixa norte-americana, o brasileiro recebe os juros do título em dólar, mas também fica exposto à variação da moeda. Se o dólar subir em relação ao real, o retorno convertido para reais aumenta; se a cotação cair, parte ou todo o ganho dos juros pode ser reduzido.
Por isso, a comparação direta com o CDI ou com a Selic não conta toda a história. Em períodos de juros elevados no Brasil, a renda fixa local frequentemente entrega mais retorno. A parcela em dólar, porém, não tem como objetivo superar os investimentos em reais em todas as janelas.
Por que manter ativos fora do Brasil pode proteger a carteira
A lógica da diversificação de moeda é evitar que todo o patrimônio dependa do mesmo cenário econômico. Quem concentra os recursos em Tesouro Selic e CDBs se beneficia quando os juros brasileiros estão altos, mas fica mais exposto quando a Selic começa a cair e a remuneração desses produtos diminui.
O dólar costuma se comportar de maneira diferente dos ativos brasileiros em momentos de estresse. Em crises, investidores procuram moedas consideradas mais seguras, enquanto ações e títulos locais podem perder valor. Essa relação é chamada de correlação: quando ela é baixa, dois investimentos tendem a não subir ou cair juntos.
O que aconteceu em crises recentes
Durante a pandemia, a Selic caiu para 2% ao ano em poucos meses, enquanto o dólar avançou de cerca de R$ 4 para perto de R$ 6 e a inflação superou 10% em um ano. O episódio mostrou como uma carteira concentrada em reais pode enfrentar mudanças rápidas de cenário.
Entre 2014 e 2016, período de recessão brasileira e processo de impeachment, o dólar acumulou alta de 89% frente ao real, segundo cálculos da XP. Considerando também o rendimento dos Treasuries, uma posição dolarizada teria retornado 97,1%, ante 24,1% do CDI.
Dólar não substitui a renda fixa brasileira
O resultado de um período de crise não significa que a moeda estrangeira sempre será mais rentável. Entre 2016 e 2026, o retorno mensal de uma posição em dólar teve correlação praticamente nula com o CDI. Na prática, isso indica que o desempenho de um não permite prever o do outro.
Essa característica pode melhorar a resistência do portfólio, mas também traz riscos. O dólar pode recuar mesmo quando a renda fixa brasileira vai mal, e os juros dos Treasuries são inferiores aos oferecidos no Brasil. Além disso, o resultado em reais depende da cotação no momento da conversão.
O que observar antes de tomar uma decisão
Para quem investe, a questão central não é escolher entre dólar e Selic como se fossem alternativas idênticas, mas entender qual risco cada ativo ajuda a administrar. A renda fixa brasileira oferece remuneração elevada enquanto os juros permanecem altos; a exposição ao dólar funciona como proteção contra uma deterioração do cenário local ou internacional.
O próximo fator relevante será a trajetória dos juros nos dois países e o comportamento do câmbio. Uma eventual queda da Selic reduziria o rendimento dos investimentos pós-fixados em reais, enquanto mudanças nos juros americanos poderiam afetar tanto os Treasuries quanto a cotação do dólar. A decisão deve considerar prazo, objetivos e tolerância a oscilações.
