O rendimento do título japonês de dez anos tocou 3% nesta terça-feira (1º), pela primeira vez em 30 anos, em um movimento que acompanhou a alta das taxas de outros países. A venda simultânea de títulos soberanos elevou o custo de financiamento no Japão, nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Alemanha, reforçando a pressão sobre os juros de longo prazo no Brasil.

Juros sobem nas principais economias

O rendimento do título britânico de 30 anos alcançou o maior nível desde 1998. Nos Estados Unidos, a taxa do Treasury de dez anos, referência global para o custo do dinheiro, atingiu o patamar mais alto em 20 meses. Na Alemanha, o papel de dez anos renovou a máxima em 52 semanas.

Quando investidores vendem títulos, seus preços caem e os rendimentos sobem. Na prática, isso significa que governos e empresas precisam oferecer uma remuneração maior para captar recursos. O movimento também reduz o valor de mercado de títulos que já estão nas carteiras dos investidores.

Petróleo reacende temor de inflação

O gatilho imediato foi a escalada militar entre Estados Unidos e Irã no fim de semana, com impacto sobre o tráfego no Estreito de Ormuz. O petróleo Brent superou US$ 92 por barril, aumentando o risco de alta nos custos de transporte, energia e produção.

Na zona do euro, a inflação de agosto acelerou para 3,3%, na terceira alta consecutiva. O resultado reforçou a expectativa de que o Banco Central Europeu eleve os juros na próxima semana. A preocupação é que o petróleo mais caro contamine as expectativas de inflação e obrigue os bancos centrais a manter ou voltar a elevar as taxas básicas.

Mercado divide apostas sobre o Fed

A probabilidade de o Federal Reserve aumentar os juros na reunião de 15 e 16 de setembro passou de menos de 40% na semana passada para mais de 66% nesta terça-feira. A mudança mostra como o mercado passou a considerar mais provável uma resposta monetária ao risco de inflação.

O JPMorgan projeta o Treasury de dez anos em 4,85% e trabalha com uma única alta de juros nos Estados Unidos neste ano, em dezembro. O banco afirma que choques anteriores de petróleo tiveram impacto limitado sobre os preços porque a queda da demanda compensou parte da redução dos estoques.

O UBS tem uma leitura mais branda: avalia que o Fed pode permanecer parado até o fim do ano e que a inflação americana continuará cedendo. A instituição projeta a taxa do Treasury de dez anos em 4,5% no encerramento do ano, caso o tráfego pelo Estreito de Ormuz se recupere gradualmente.

Por que os juros brasileiros também avançaram

No Brasil, as taxas longas subiram de forma mais contida, apesar de o PIB do segundo trimestre ter crescido 0,5%, sinalizando desaceleração econômica. Esse enfraquecimento pode ajudar o Banco Central a realizar outro corte de juros, mas não foi suficiente para neutralizar a pressão externa.

A taxa brasileira de dois anos tem respondido principalmente à reprecificação da política monetária americana. A sensibilidade da curva local aos juros globais está no topo da faixa histórica, enquanto investidores estrangeiros vêm reduzindo, desde abril, posições em NTN-B, título público corrigido pela inflação e ligado às taxas reais de longo prazo.

O que muda para investidores e para a economia

Para quem investe, a alta das taxas globais aumenta a volatilidade dos títulos prefixados e atrelados à inflação, cujos preços tendem a cair quando os juros de mercado sobem. Também pode pressionar ações e ativos de países emergentes, porque aplicações em mercados desenvolvidos passam a oferecer remuneração maior.

O próximo movimento dependerá da duração do conflito, do comportamento do petróleo e dos próximos dados de inflação. No Brasil, a desaceleração do PIB atua a favor de juros menores, mas a pressão externa e o risco de repasse do petróleo podem limitar a velocidade de queda da Selic e manter elevado o custo do crédito.

Impacto para a sociedade

A alta do petróleo, que passou de US$ 92 por barril, pode encarecer combustíveis e pressionar a inflação no Brasil. Juros internacionais mais altos também aumentam o custo de empréstimos para empresas e governos, o que pode afetar crédito, investimentos e a atividade econômica.