O dólar à vista avançava 0,36%, a R$ 5,192, nesta quinta-feira (20), após a trégua e o anúncio de que o Tesouro dos Estados Unidos vai dobrar o tamanho de algumas operações de recompra de títulos. O movimento ocorre um dia depois de a moeda cair 0,86%, para R$ 5,1777, com o alívio nos mercados provocado pelas medidas americanas. A recuperação desta quinta-feira mostra que a pressão sobre os ativos brasileiros não foi eliminada.

Como a recompra de títulos afetou o dólar

As operações de recompra de títulos, conhecidas como recompras de Treasuries, reduzem temporariamente a quantidade de papéis disponíveis no mercado e ajudam a melhorar a liquidez. Na prática, o Tesouro americano sinalizou uma atuação maior para dar suporte ao funcionamento desse mercado, o que diminuiu a tensão entre investidores e provocou queda nos rendimentos dos títulos na sessão anterior.

Quando os rendimentos dos Treasuries recuam, a dívida americana tende a ficar relativamente menos atraente, reduzindo a força do dólar e favorecendo ativos de maior risco, como moedas de países emergentes. Nesta quinta-feira, porém, os rendimentos voltaram a subir, retirando parte desse alívio e contribuindo para a valorização da moeda americana ante o real.

Dados dos Estados Unidos e petróleo entram no radar

Os pedidos de auxílio-desemprego nos Estados Unidos caíram em 6 mil na semana encerrada em 15 de agosto, para 206 mil. O resultado ficou abaixo da expectativa de 211 mil pedidos, indicando um mercado de trabalho mais resistente do que o previsto, mas não provocou reação adicional relevante no câmbio brasileiro até o momento.

O petróleo também pesa sobre as cotações. O barril do Brent era negociado próximo de US$ 94, em meio à tensão entre Estados Unidos e Irã. Petróleo mais caro pode aumentar a demanda global por dólares e, no Brasil, elevar a preocupação com combustíveis e inflação, especialmente quando combinado com um real mais fraco.

Mercado acompanha eleições e trajetória fiscal no Brasil

No ambiente doméstico, investidores monitoram as campanhas eleitorais e a condução das contas públicas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que controlar as despesas obrigatórias é uma forma de mostrar ao mercado que esses gastos não crescerão sem controle.

Em entrevista como porta-voz econômico da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Durigan disse ser possível reverter a trajetória da dívida pública com a redução dos juros. Declarações sobre gastos, dívida e juros influenciam o câmbio porque alteram a percepção de risco sobre os ativos brasileiros e podem afetar a entrada ou a saída de recursos estrangeiros.

Contratos futuros e agenda do Banco Central

O contrato de dólar futuro para setembro, o mais negociado na B3, subia 0,24%, para R$ 5,205. Esse contrato reflete as expectativas dos participantes para a cotação em uma data futura e, por isso, pode se movimentar de maneira diferente do dólar à vista.

A agenda brasileira inclui a oferta de até 50 mil contratos de swap cambial pelo Banco Central para a rolagem de vencimentos de setembro. Esse instrumento funciona como uma proteção financeira contra oscilações do dólar, sem representar necessariamente a venda imediata da moeda física. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, também participa da reunião do Conselho Monetário Nacional.

O que observar depois da alta para R$ 5,19

Para quem investe, o próximo movimento do dólar dependerá da combinação entre os rendimentos dos Treasuries, o petróleo, as sinalizações sobre as contas públicas brasileiras e o ambiente eleitoral. A realização do leilão de títulos prefixados do Tesouro, previsto para esta quinta-feira, também será acompanhada porque a demanda pelos papéis ajuda a indicar a percepção dos investidores sobre juros e risco fiscal.

Para consumidores e empresas, a alta desta quinta-feira não determina sozinha uma mudança imediata nos preços. Se o câmbio permanecer pressionado, contudo, os efeitos podem aparecer gradualmente em produtos importados, insumos e combustíveis. Já nos investimentos, a oscilação reforça a importância de acompanhar a exposição de cada ativo ao dólar e aos juros, sem que o movimento de um único pregão defina o cenário econômico.

Impacto para a sociedade

A alta do dólar pode encarecer produtos importados e aumentar a pressão sobre a inflação, especialmente se persistir junto com o petróleo mais caro. Combustíveis, insumos industriais, eletrônicos e outros itens com componentes cotados em moeda estrangeira podem sentir esse efeito, embora uma oscilação de um único dia não determine mudanças imediatas nos preços ao consumidor.