A XP considera a Bolsa brasileira descontada, mas avalia que eleições, situação fiscal e juros podem pesar mais que os preços das ações nos próximos meses. A corretora manteve o preço-alvo de 200 mil pontos para o Ibovespa no fim de 2026, equivalente a uma alta potencial de cerca de 7% ante os níveis atuais, e traçou cenários que vão de 165 mil a 248 mil pontos. A leitura importa porque o caminho até esse objetivo depende de fatores econômicos e políticos ainda incertos.

Desconto da Bolsa não elimina riscos

O Ibovespa negocia a cerca de 8,5 vezes o lucro projetado das empresas, medida conhecida como preço sobre lucro, ou P/L. Segundo a XP, isso representa um desconto de 15% em relação a outros mercados emergentes e de 49% ante bolsas globais. Em tese, ações mais baratas podem atrair investidores; mas esse dado, sozinho, não garante valorização.

O desempenho positivo do índice em setembro tampouco encerra as dúvidas. Para os estrategistas da corretora, a trajetória dos juros, a situação das contas públicas e o apetite de investidores globais por risco devem influenciar os preços mais do que a avaliação das empresas. Por isso, a Bolsa é descrita como estando em uma “encruzilhada” às vésperas da eleição presidencial.

Dívida e juros longos ficam no centro da análise

A XP cita a dívida bruta do Brasil em 83% do Produto Interno Bruto (PIB), com crescimento de cerca de três pontos percentuais por ano. O mercado deve acompanhar sinais sobre a política fiscal que será adotada pelo próximo governo e pelo Congresso a partir de 2027. A preocupação é que uma trajetória de dívida crescente aumente a percepção de risco sobre o país.

Esse risco pode se refletir nos juros longos, que afetam o custo de financiamentos e a taxa usada para avaliar ganhos futuros das empresas. Quando essas taxas sobem, investimentos de longo prazo tendem a perder atratividade, e as ações podem sofrer pressão. Se caem, o efeito pode favorecer a Bolsa, embora dependa também das perspectivas para inflação e atividade econômica.

Entrada de estrangeiros não significa aposta consolidada

Em setembro, investidores estrangeiros fizeram uma entrada líquida de R$ 9,6 bilhões no mercado à vista, depois de retirarem R$ 18 bilhões em agosto. A mudança pode indicar que parte desses investidores começou a se posicionar para a eleição, mas a XP ressalva que muitos ainda aguardam maior clareza política e econômica antes de ampliar sua exposição ao Brasil.

O fluxo de recursos pode influenciar a demanda por ações e, consequentemente, os preços. Ainda assim, um mês de entradas não basta para confirmar uma tendência duradoura. A própria incerteza sobre o cenário fiscal e os juros pode levar investidores a rever posições.

Ações variam conforme o cenário para real e contas públicas

Nas carteiras temáticas, a XP aponta empresas que poderiam se beneficiar de um ambiente mais favorável ao mercado, como Petrobras, Banco do Brasil, Sabesp, B3 e Localiza. Para um cenário de piora fiscal, a corretora destaca nomes defensivos ou com exposição ao dólar, entre eles Aura, Petrobras, Gerdau, WEG e Suzano.

Há também cestas voltadas a diferentes trajetórias da moeda. Rede D’Or, Lojas Renner, C&A, Cyrela e Allos aparecem entre as ações com menor exposição ao dólar, que poderiam ser favorecidas por um real mais forte e pela melhora da percepção de risco. Já Prio, Vale, Suzano, Klabin, JBS e MBRF são citadas entre empresas com receitas ligadas ao exterior, que podem funcionar como proteção se o real perder valor.

O que observar até o fim de 2026

Na carteira recomendada de outubro, a XP elevou de 5% para 10% o peso de BTG Pactual e aumentou para 10% a participação de Iguatemi, citando a exposição ao mercado de capitais e a qualidade dos ativos. Sabesp também teve seu peso elevado de 7,5% para 10%. Essas mudanças refletem as escolhas da corretora, não uma garantia de desempenho.

Para quem acompanha o mercado, os próximos sinais relevantes serão a evolução dos juros longos, as decisões fiscais e a clareza sobre as propostas políticas para 2027. O alvo de 200 mil pontos indica a expectativa central da XP, mas a distância entre os cenários de 165 mil e 248 mil pontos mostra como o resultado pode mudar conforme esses fatores.