As vendas do varejo brasileiro caíram 0,8% em julho na comparação com junho, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (15). O resultado foi mais fraco que o esperado e representa o pior desempenho mensal em três meses, embora o comércio ainda registre alta de 1,2% ante julho de 2025.

Queda mensal veio acima do esperado

Uma pesquisa da Reuters apontava expectativa de recuo de 0,2% nas vendas em julho, enquanto a projeção para a comparação anual era de crescimento de 2,15%. A retração divulgada pelo IBGE foi, portanto, mais intensa que a prevista pelos analistas e sugere perda de ritmo no começo do segundo semestre.

Julho teve a segunda queda mensal do varejo em 2026. A primeira havia ocorrido em abril, quando o volume vendido diminuiu 1,1% ante março. A sequência reforça a percepção de que o consumo das famílias deixou de ser um ponto tão forte da economia, depois de também ter recuado 0,4% no segundo trimestre, segundo os dados mais recentes do Produto Interno Bruto (PIB).

Móveis e roupas lideraram as perdas

Entre as oito atividades pesquisadas pelo IBGE, cinco venderam menos em julho do que no mês anterior. O recuo mais intenso foi registrado em móveis e eletrodomésticos, de 4,9%, seguido por livros, jornais, revistas e papelaria, com queda de 4,2%.

Também houve retração em tecidos, vestuário e calçados, de 2,7%; outros artigos de uso pessoal e doméstico, de 2,2%; e hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, de 0,2%. Na direção oposta, artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria avançaram 0,6%, assim como equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação. As vendas de combustíveis e lubrificantes cresceram 0,3%.

Varejo ampliado teve desempenho diferente

O chamado varejo ampliado, que inclui veículos, motos, partes e peças, material de construção e o atacado de produtos alimentícios, bebidas e fumo, apresentou alta de 0,4% em julho ante junho.

Esse resultado mostra que o desempenho negativo não foi uniforme em todos os segmentos ligados ao comércio. Ainda assim, a queda no varejo restrito, que concentra as vendas diretamente destinadas ao consumidor, indica maior cautela das famílias em categorias como bens duráveis, vestuário e itens domésticos.

Juros altos continuam pressionando o consumo

O comércio vinha sendo sustentado pela força do mercado de trabalho, por medidas de estímulo ao consumo e pelo enfraquecimento da inflação. Esses fatores ajudam a preservar a renda disponível, mas enfrentam o efeito contrário da política monetária restritiva, com a Selic em 14% ao ano.

Juros elevados encarecem empréstimos, financiamentos e compras parceladas, além de estimular a aplicação do dinheiro em renda fixa em vez do consumo imediato. Para as empresas, também aumentam o custo de financiar estoques e investimentos. Por isso, uma desaceleração nas vendas pode ser um sinal de que a política do Banco Central começa a pesar mais sobre a atividade.

O que o dado muda para consumidores e investidores

O Copom deve voltar a decidir sobre a taxa básica de juros na quarta-feira, com expectativa de corte de 0,25 ponto percentual. Uma redução tende a diminuir gradualmente o custo do crédito e pode favorecer o consumo, mas seus efeitos não aparecem de forma imediata: bancos e empresas precisam repassar a mudança, e contratos anteriores continuam sujeitos às condições já estabelecidas.

Para quem investe, o dado reforça a importância de acompanhar a combinação entre atividade econômica e juros, sem indicar sozinho uma direção para os ativos. Para trabalhadores e consumidores, a principal mensagem é de um comércio menos aquecido em julho, enquanto os próximos indicadores mostrarão se essa fraqueza foi pontual ou se representa uma tendência mais duradoura.

Impacto para a sociedade

A queda nas vendas indica que as famílias começaram o segundo semestre consumindo menos, o que pode afetar o faturamento de lojas e a atividade econômica. O resultado também entra na avaliação do Banco Central sobre os efeitos dos juros elevados sobre o crédito, as compras parceladas e o orçamento das famílias.