O CEO da Vale, Gustavo Pimenta, afirmou que os minerais críticos terão importância estratégica e econômica comparável à do petróleo para as próximas gerações. A declaração, feita nesta sexta-feira (28), durante o Fórum Lide de Mineração, em São Paulo, veio acompanhada de um alerta: apesar de suas reservas, o Brasil está perdendo espaço na disputa global por investimentos e capacidade de produção.
Por que minerais críticos ganharam peso estratégico
Na avaliação de Pimenta, a demanda por esses recursos será impulsionada por três grandes frentes: a expansão da inteligência artificial, a descarbonização da economia e a eletrificação de veículos, indústrias e sistemas de energia. Esses processos dependem de cadeias de fornecimento estáveis para metais usados em equipamentos, redes elétricas e tecnologias de armazenamento.
O executivo citou uma estimativa da Agência Internacional de Energia (AIE) segundo a qual a oferta global de minerais críticos precisará crescer entre cinco e seis vezes nos próximos 20 anos. O ponto central, afirmou, não é a falta de consumo, mas a dificuldade de abrir minas, obter licenças, construir infraestrutura e colocar novos projetos em operação.
Oferta limitada pode pressionar preços e investimentos
“Demanda é infinita. Nosso problema é a oferta”, disse Pimenta. Quando a produção não acompanha o consumo, o mecanismo econômico tende a elevar os preços dos minerais e a aumentar a disputa entre países e empresas por contratos, reservas e projetos de longo prazo.
Esse movimento também pode favorecer países capazes de ampliar rapidamente a produção e o processamento. Ao mesmo tempo, aumenta a importância geopolítica dos recursos, já que interrupções no fornecimento podem afetar fábricas, equipamentos de energia e setores associados à transição tecnológica.
Brasil perdeu ritmo para a Austrália na mineração
Para ilustrar a perda de competitividade, Pimenta comparou a produção de minério de ferro do Brasil e da Austrália. Em 2010, os dois países produziam volumes próximos: cerca de 400 milhões de toneladas na Austrália e 380 milhões no Brasil.
Quinze anos depois, a produção australiana alcançou aproximadamente 1 bilhão de toneladas, enquanto a brasileira permaneceu perto de 400 milhões. Segundo o CEO, trajetória semelhante foi observada em níquel e cobre. A comparação indica que o desafio brasileiro não está apenas no tamanho das reservas, mas na velocidade de transformação desse potencial em oferta efetiva.
Conhecimento do território e licenciamento são gargalos
Outro obstáculo apontado é o baixo nível de conhecimento geológico do país. Apenas 28% do território brasileiro é conhecido do ponto de vista mineral, contra mais de 70% na Austrália e no Chile. Sem informações detalhadas, aumenta a incerteza e fica mais difícil direcionar capital para novas áreas de exploração.
Pimenta também defendeu a redução do tempo necessário para desenvolver projetos, hoje estimado em cerca de 15 anos entre a exploração e o início da operação. A proposta não é diminuir o rigor ambiental, mas tornar o processo mais rápido, com reforço das equipes dos órgãos responsáveis e maior uso de tecnologia.
O que está em jogo para o Brasil nos próximos anos
Além de Argentina, Chile e Peru, outros países buscam atrair investimentos para aproveitar o crescimento da demanda. Para Pimenta, o Brasil corre o risco de perder uma janela de oportunidade caso não acelere o conhecimento de suas reservas, o licenciamento e a implantação de projetos.
Um estudo apresentado no evento estima que royalties e contribuições da mineração poderiam passar de R$ 74 bilhões na última década para R$ 130 bilhões nos próximos dez anos, caso o potencial do país seja desenvolvido. A projeção também indica a criação de 2 milhões de empregos adicionais, além dos 3 milhões já existentes na cadeia ampliada do setor. O próximo passo, portanto, depende menos da previsão de demanda e mais da capacidade de transformar reservas em produção competitiva.
