O CEO da Vale, Gustavo Pimenta, detalhou os planos da mineradora diante do frete marítimo elevado, da desaceleração da China e do crescimento em metais básicos, enquanto Citi e Itaú BBA avaliaram os riscos para a companhia e suas ações. O ponto central é o impacto do transporte sobre a rentabilidade: com o frete Brasil-China perto de US$ 40 por tonelada, parte da oferta de minério pode deixar de ser economicamente viável.

Frete elevado ameaça parte da produção de minério

De acordo com o Citi, cerca de 120 milhões de toneladas de minério de ferro podem se tornar inviáveis nas condições atuais. O volume inclui aproximadamente 35 milhões de toneladas compradas de terceiros e cerca de 5 milhões de toneladas de produção própria com custos mais altos, além de outras operações afetadas pelo transporte.

Quando o frete sobe, o preço recebido pela mineradora não aumenta automaticamente na mesma proporção. O custo adicional reduz a margem por tonelada e pode fazer com que cargas destinadas a mercados distantes deixem de compensar financeiramente. Por isso, o Citi avalia que o preço do minério teria de subir caso os custos permaneçam nesse nível.

Vale tenta proteger margens para 2026 e 2027

A companhia informou que tem 75% do frete contratado para 2027 e pretende manter, no longo prazo, uma cobertura estrutural entre 70% e 75%. As taxas contratadas estão entre US$ 18 e US$ 20 por tonelada, bem abaixo do mercado à vista.

O frete spot, negociado para entrega imediata, chegou perto de US$ 40 por tonelada. Já o Itaú BBA classificou a faixa de US$ 40 a US$ 42 como insustentável e estimou que entre 100 milhões e 150 milhões de toneladas da oferta marítima global operam no prejuízo, sobretudo no Brasil e na Austrália.

Combustível dos navios adiciona pressão aos custos

O combustível marítimo, conhecido como bunker, está contratado em torno de US$ 500 por tonelada. Com a cotação à vista em US$ 750, o custo do transporte aumenta cerca de US$ 4 por tonelada. A Vale, porém, afirmou que mantém 70% do bunker protegido por hedge — mecanismo usado para reduzir o efeito de oscilações de preços — em 2026 e 2027.

Na avaliação do Itaú BBA, a empresa está totalmente protegida para 2026 e tem 75% das necessidades de contratação de navios cobertas em 2027. O principal risco, portanto, está concentrado no segundo semestre do próximo ano, quando a parcela ainda não contratada ficará mais exposta às condições do mercado.

China mais fraca é parcialmente compensada por outros mercados

A Vale espera uma economia chinesa mais lenta e uma produção de aço marginalmente menor nos próximos 12 meses. Em contrapartida, a mineradora destacou a demanda do Sudeste Asiático, com vendas de 10 milhões de toneladas para o Vietnã e 15 milhões de toneladas para a Índia.

A companhia também vê oportunidades na queda do teor médio do minério de ferro, na alta da alumina e na recuperação da demanda por pelotas via Samarco. No Brasil, a leitura sobre o fenômeno El Niño é neutra, enquanto uma possível evolução da legislação sobre cavernas poderia acelerar o Sistema Norte.

Citi mantém visão positiva, mas riscos seguem no radar

Em metais básicos, o foco da Vale continua sendo o crescimento em cobre. O projeto Alemão foi apresentado como o primeiro projeto de expansão totalmente novo do segmento, com conversas consideradas construtivas com o Ibama. O governo brasileiro, segundo o Citi, não participa das discussões sobre um eventual IPO da Vale Base Metals.

O Citi manteve recomendação de compra para os ADRs da Vale, recibos negociados nos Estados Unidos, com preço-alvo de US$ 18. O valor implica potencial de alta de 24,4%, além de retorno total estimado de 31,3% quando considerados os dividendos. Para quem acompanha VALE3, os próximos pontos de atenção são a evolução do frete, a demanda asiática, a parcela de contratos ainda descoberta em 2027 e o avanço dos projetos de cobre.