A indústria brasileira paga US$ 15 por milhão de BTU de gás natural, enquanto empresas de países vizinhos desembolsam de US$ 3 a US$ 4 pela mesma quantidade, afirmou o CEO da Usiminas, Marcelo Chara, nesta quarta-feira (30), em São Paulo. A diferença — de aproximadamente quatro a cinco vezes — aumenta os custos de produção e pode reduzir a competitividade das fábricas brasileiras.
Preço elevado aparece em toda a cadeia do gás
Chara atribuiu o custo não apenas ao preço do gás na origem, mas também às etapas de transporte e distribuição. O valor pago pela indústria, portanto, reflete uma cadeia de fornecimento mais ampla: contratos, tributos e a infraestrutura necessária para levar o combustível até as unidades consumidoras.
O BTU, sigla em inglês para unidade térmica britânica, mede a quantidade de energia do combustível. Comparar o preço por milhão de BTU ajuda a colocar lado a lado o custo do gás em diferentes mercados. Na comparação apresentada pelo executivo, a indústria brasileira paga de US$ 11 a US$ 12 a mais por unidade do que os países vizinhos citados.
Produção nacional não elimina a necessidade de importação
O executivo ressaltou que o Brasil produz mais que o dobro do gás natural que consome e está entre os maiores produtores de petróleo do mundo, mas ainda importa gás. Ter produção doméstica elevada, portanto, não garante que o combustível chegue às empresas com preço baixo: as condições de contratação e os custos para transportar e distribuir também pesam no resultado final.
Para reduzir os valores, Chara defendeu rever contratos, tributos e custos de transporte e distribuição. Na avaliação dele, a discussão deve envolver a Agência Nacional do Petróleo, governos e fornecedores. O objetivo seria tratar os diferentes componentes do preço, em vez de concentrar a resposta apenas na produção da molécula de gás.
Executivo pede planejamento com horizonte de décadas
Chara afirmou que mudanças na estrutura do setor exigem uma política de Estado de longo prazo, com planejamento para os próximos 10 a 20 anos. A proposta, segundo ele, é dar continuidade às medidas necessárias para enfrentar custos que atravessam várias etapas da cadeia e não dependem de uma decisão isolada.
O gás natural também pode complementar fontes renováveis de energia, disse o CEO, especialmente diante do curtailment — cortes na produção de energia. A relação importa para a indústria porque a disponibilidade de energia é parte das condições para manter operações. O executivo, porém, não apresentou uma estimativa de quanto essa complementaridade poderia reduzir custos.
Investimento da Usiminas prevê uso de combustíveis próprios
A empresa confirmou investimento de R$ 1,7 bilhão em uma nova bateria de coque em Ipatinga, Minas Gerais. O projeto prevê abastecer a instalação com combustíveis próprios e aproveitar gases gerados nos processos industriais. Chara disse que a decisão expressa confiança no desenvolvimento da indústria brasileira nos próximos 15 a 20 anos.
O investimento também evidencia uma resposta empresarial ligada à eficiência no uso de energia e combustíveis dentro da própria operação. Ainda assim, não elimina o debate mais amplo sobre o preço do gás disponível no país, que, segundo o executivo, depende de mudanças em contratos, tributos, transporte e distribuição.
Custos e defesa comercial seguem no radar da indústria
Além do gás, Chara avaliou que as medidas brasileiras de defesa comercial são insuficientes diante das políticas adotadas pelos Estados Unidos e pela Europa. Ele citou a tarifa de 100% aplicada pelos norte-americanos a carros chineses e afirmou que o Brasil está “inundado” por veículos importados da China. A crítica aponta preocupação com a concorrência externa, mas não veio acompanhada de uma proposta específica de medida.
Para quem acompanha a economia, o próximo ponto é observar se haverá ações para rever os custos ao longo da cadeia do gás e como elas afetariam a indústria. Para consumidores e trabalhadores, o tema importa porque energia e combustíveis entram nas despesas de produção; mudanças podem influenciar a competitividade das empresas e suas decisões, embora não indiquem, por si só, alteração imediata nos preços ao consumidor ou no emprego.
Impacto para a sociedade
O gás é um insumo de várias atividades industriais, e um custo elevado pode pressionar despesas de produção e dificultar a concorrência com empresas de outros países. Isso não significa uma mudança imediata na conta de energia das famílias, mas pode afetar decisões sobre produção, investimentos e empregos no setor.
