O UBS avalia que a perspectiva de juros altos por mais tempo reduz o potencial de valorização dos investimentos e pode penalizar ações brasileiras, especialmente empresas mais endividadas. O banco suíço identifica utilities, materiais e varejo como os setores com balanços mais pressionados, enquanto afirma que os rendimentos dos títulos americanos ainda podem influenciar a direção dos mercados globais.

UBS espera queda nos juros curtos dos Estados Unidos

A equipe do banco vê espaço limitado para uma nova alta dos rendimentos, ou yields, dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos de longo prazo, conhecidos como Treasuries. Ao mesmo tempo, espera uma queda nos rendimentos dos papéis de curto prazo, cenário chamado de inclinação de alta da curva: as taxas curtas recuam mais do que as longas.

A projeção também diverge da expectativa predominante no mercado. O UBS prevê que o Federal Reserve, o banco central americano, mantenha os juros nos Estados Unidos até o fim deste ano, enquanto os preços dos ativos já incorporam a possibilidade de alguns aumentos.

Por que rendimentos maiores pressionam empresas

O banco afirma que os investidores estão atentos sobretudo ao elevado volume de emissão de dívida pelo governo americano e, em menor grau, às captações feitas por empresas de inteligência artificial. Os chamados breakevens, uma medida indireta das expectativas de inflação, subiram moderadamente.

Independentemente de a pressão vir da inflação esperada ou dos juros reais, taxas mais altas encarecem o financiamento. Empresas alavancadas — isto é, que dependem mais de dívida para operar ou investir — podem gastar mais com juros, reduzir investimentos e ter menor lucro. Esse efeito também pode tornar a renda fixa mais atraente em relação às ações, diminuindo o fluxo de recursos para a Bolsa.

Brasil está entre os mercados mais alavancados

O UBS considera positivo o fato de a alavancagem dos mercados emergentes ter caído no período posterior à pandemia e continuar abaixo dos níveis observados nos Estados Unidos. Ainda assim, Filipinas, Brasil e Vietnã aparecem entre os países com maior endividamento relativo dentro desse grupo. Taiwan, Coreia do Sul e Emirados Árabes Unidos estão entre os menos alavancados.

Na análise setorial, utilities, materiais e varejo concentram os balanços mais pressionados. No conjunto dos emergentes, o banco também observa aumento da alavancagem nos últimos três anos, embora ressalte que os investimentos de grandes companhias de tecnologia e inteligência artificial ainda sustentam os resultados de empresas de tecnologia da região.

Prêmio de risco deixa ações brasileiras mais vulneráveis

O prêmio de risco das ações mede quanto o investidor exige de retorno adicional para aplicar em Bolsa em vez de escolher um ativo considerado mais seguro. Nos mercados emergentes, esse prêmio está próximo da média histórica. Nos Estados Unidos, porém, encontra-se entre os níveis mais baixos da última década.

O UBS aponta que, com exceção de China, Coreia do Sul, África do Sul e Indonésia, a maioria dos mercados — incluindo o Brasil — está na metade inferior de sua faixa histórica de prêmio. Isso sugere menor proteção caso os rendimentos dos Treasuries subam novamente, porque as ações já oferecem uma compensação relativamente menor pelo risco.

Empresas brasileiras citadas na análise

Entre as companhias acompanhadas pelo UBS, a CSN Mineração (CMIN3) aparece com preço-alvo de R$ 4,50, abaixo da cotação de R$ 5,90, e recomendação de venda. A Totvs (TOTS3), a Cosan (CSAN3), o Assaí (ASAI3), a Lojas Renner (LREN3) e o Grupo Mateus (GMAT3) têm recomendação neutra, embora apresentem potenciais de alta calculados pelo banco entre 10% e 32%.

O estudo também lista empresas com recomendação de compra, como Sabesp (SBSP3), Rede D’Or (RDOR3), B3 (B3SA3), XP (XP), Motiva (MOTV3), StoneCo (STNE), Cyrela (CYRE3) e Marcopolo (POMO4). Os preços-alvo indicados variam de R$ 18,50 para a Motiva a R$ 38 para a Sabesp, mas essas estimativas não eliminam o risco de pressão provocado por juros elevados.

Para quem investe, o ponto central é acompanhar a trajetória dos juros americanos, o volume de novas emissões de dívida e o endividamento das empresas brasileiras. A combinação desses fatores pode afetar tanto a atratividade relativa da Bolsa quanto o custo de financiamento e os lucros corporativos; por isso, o cenário projetado pelo UBS limita o potencial dos ativos mesmo quando há preços-alvo superiores às cotações atuais.