O UBS avalia que boa parte das dificuldades da Hapvida já está refletida no preço das ações, mas diz que uma recuperação depende de sinais concretos de melhora operacional. A avaliação importa porque a empresa tem um potencial benefício fiscal de R$ 30,8 bilhões, cujo aproveitamento exige que volte a gerar lucro — algo que, segundo o banco, ainda não foi demonstrado.

Preço incorpora riscos, mas não confirma uma virada

Ao iniciar a cobertura da Hapvida, o UBS BB adotou recomendação neutra e estabeleceu preço-alvo de R$ 7,80 por ação. A leitura do banco é que o papel deixou de ser apenas uma aposta em uma recuperação futura: para essa possibilidade se sustentar, a companhia precisa mostrar que consegue melhorar seus resultados na prática.

Assim, dizer que parte do cenário adverso já está no preço não equivale a afirmar que os problemas foram resolvidos. Na avaliação dos analistas, a deterioração operacional continua, embora em ritmo menos intenso que antes. Ainda faltam evidências para concluir que essa desaceleração representa o início de uma recuperação consistente.

Sinistralidade ainda pressiona os resultados

Para acompanhar o desempenho, o UBS analisou dados de IFRS 17 divulgados nas notas explicativas auditadas da companhia e observou o Medical Loss Ratio (MLR), indicador de sinistralidade que compara os gastos médicos com a receita dos planos. Quando essa proporção aumenta, uma parcela maior da receita é consumida pelo atendimento, o que pode pressionar os resultados.

As estimativas do banco apontam para uma piora de cerca de 50 pontos-base no terceiro trimestre de 2026 e de 30 pontos-base no quarto trimestre. A sequência indica uma deterioração prevista menor no último trimestre do que no anterior, mas ainda não uma reversão. Para o ano, o UBS projeta Cash MLR de 74,7%.

Projeção de longo prazo segue cautelosa

Mesmo com a expectativa de uma piora mais lenta em 2026, o UBS prevê avanço gradual do indicador nos próximos anos. No longo prazo, o Cash MLR poderia se aproximar de 76%; considerando provisões, a estimativa indicada pelo banco fica em torno de 77%.

O histórico recente ajuda a entender a cautela. A ação foi pressionada após resultados trimestrais abaixo do esperado por analistas. No segundo trimestre, disputas judiciais tiveram peso nos custos, e o presidente-executivo admitiu que a empresa errou ao não impedir que os processos se transformassem em despesas maiores. No ano passado, resfriados também contribuíram para elevar sinistralidade e despesas, enquanto pressões jurídicas e provisões ficaram mais caras.

Benefício fiscal depende de lucro e reorganização

Os R$ 30,8 bilhões destacados pelo UBS correspondem a um ágio fiscal associado à combinação de negócios com a NotreDame Intermédica, realizada em 2022. Esse tipo de ágio surge quando o preço pago por uma participação supera o valor contábil da empresa adquirida, com base na expectativa de lucros futuros.

Se cumprir as condições necessárias, a Hapvida poderá usar o benefício para reduzir pagamentos de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Mas o valor não é dinheiro disponível imediatamente: além de gerar lucro tributável suficiente para absorvê-lo, a companhia precisaria concluir uma reorganização societária. O UBS considera o ativo uma fonte potencial de valor, não um ganho já assegurado.

O que acompanhar nos próximos resultados

Para quem acompanha a ação, a questão central é se os próximos dados confirmarão uma melhora efetiva, e não apenas uma desaceleração da piora. A evolução do MLR e a capacidade de controlar despesas e custos ligados a disputas judiciais ajudam a medir se a operação está avançando na direção necessária.

Também será importante observar se a empresa consegue voltar a gerar lucros e concluir a reorganização que permitiria aproveitar o benefício fiscal. Até que essas condições apareçam, a avaliação do UBS combina riscos que já podem estar refletidos no preço com incerteza sobre a recuperação e sobre a conversão do ativo fiscal em valor para os acionistas.