O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retomou a ofensiva para demitir a diretora do Federal Reserve (Fed), Lisa Cook, apenas dois meses depois de a Suprema Corte americana ter barrado uma tentativa anterior. Em uma carta enviada nesta semana, a Casa Branca afirmou que Trump está “considerando” afastá-la do cargo e deu prazo de três semanas para que ela responda a acusações não comprovadas de fraude hipotecária. O movimento reacende o debate sobre a independência do banco central americano e pode ter repercussões para os mercados globais, inclusive o brasileiro.
O que diz a nova carta
O documento, assinado pelo vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Dan Scavino, alega que Cook teria cometido crimes que podem resultar em até 30 anos de prisão. Também a acusa de negligência, afirmando que sua conduta colocaria em dúvida sua confiabilidade para permanecer no comando do Fed, segundo informações divulgadas pela ABC News.
O advogado de Cook, Abbe D. Lowell, classificou as alegações como “infundadas” e afirmou que “não existe causa válida” para a demissão. “Assim como fizemos anteriormente, vamos contestar esse novo pretexto e preservar sua posição e o papel histórico do Federal Reserve”, disse em nota.
Por que a independência do Fed importa
A independência de bancos centrais é um pilar para a credibilidade da política monetária. Quando um governo interfere nas decisões de juros, o mercado passa a precificar maior risco de inflação descontrolada, o que pode elevar os juros de longo prazo e derrubar bolsas em todo o mundo. No caso do Fed, a expectativa é que a instituição atue livre de pressões políticas para calibrar a taxa básica e controlar a inflação sem favorecer o ciclo eleitoral.
Desde a criação do Fed, em 1913, nenhum presidente havia tentado demitir um diretor do banco central. A decisão da Suprema Corte em junho, que impediu Trump de afastar Cook por 5 votos a 4, foi vista como uma proteção histórica a essa independência. O presidente da corte, John Roberts, afirmou que Trump não garantiu a Cook “as proteções processuais previstas em lei”.
A primeira tentativa e a derrota na corte
No ano passado, Trump já havia citado a suposta fraude hipotecária para tentar demitir Cook, que é a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira de diretoria do Fed. Ela negou as acusações, dizendo que eram um pretexto para afastá-la por divergências sobre a condução da política monetária.
Em junho, a Suprema Corte decidiu que Cook deveria ter a oportunidade de contestar as acusações antes de qualquer afastamento. Roberts escreveu que “permanece uma questão em aberto sobre o que exatamente aconteceu e, de fato, se Cook cometeu negligência grave” e que ela deve poder responder às acusações. O caso foi devolvido às instâncias inferiores, o que permitiu a nova manobra de Trump.
O que mais pode estar por trás
A nova ofensiva faz parte de um padrão recente do presidente de retomar medidas barradas pela Justiça. Nesta semana, Trump também publicou um novo decreto para restringir a cidadania americana por direito de nascimento, depois que a Suprema Corte anulou sua tentativa anterior. No caso do Fed, a suspeita é que o objetivo seja minar a autoridade da diretoria e forçar decisões de juros mais alinhadas aos interesses do governo.
Para o mercado, o risco é que a constante interferência política leve o Fed a agir com cautela excessiva, atrasando cortes de juros ou mantendo taxas mais altas por mais tempo. Isso tende a fortalecer o dólar e a pressionar economias emergentes, como a brasileira, por meio de fluxos de capital e impacto no câmbio.
O que esperar daqui para frente
Cook deve apresentar sua defesa dentro do prazo de três semanas. O caso deve voltar à Justiça, mas o desfecho ainda é incerto. Se a corte permitir a demissão, abre-se um precedente perigoso: qualquer presidente poderia usar acusações frágeis para afastar diretores do Fed e interferir na política monetária.
Para quem investe, o desenrolar dessa disputa é um sinal de alerta. A credibilidade do Fed é um dos pilares dos mercados financeiros globais. Uma vitória de Trump no caso poderia aumentar a percepção de risco, elevar os prêmios de juros e pressionar ativos de maior risco, incluindo a bolsa brasileira. Acompanhe os próximos capítulos: a resposta de Cook e as decisões das cortes inferiores serão decisivas para o rumo da política monetária americana e para o cenário externo.
