Donald Trump ainda pode ter até quatro oportunidades para ampliar sua influência sobre o comando do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, em meio a disputas judiciais, vagas no Conselho de Governadores e ao futuro de Jerome Powell. O movimento importa porque a percepção de interferência política pode afetar as decisões sobre juros americanos, o dólar e as condições financeiras globais.

As quatro frentes que podem mudar o equilíbrio no Fed

As possibilidades estão relacionadas principalmente ao caso da diretora Lisa Cook, à permanência de Powell no Conselho de Governadores, a posições que poderão ficar disponíveis e à escolha que o vice-chair Philip Jefferson terá de fazer no próximo ano, quando terminar seu mandato na liderança do banco central.

Trump já conseguiu indicar Kevin Warsh para o comando do Fed, mas isso não significa que tenha controle sobre o comitê responsável pela política monetária. O Conselho de Governadores tem sete integrantes, e a estrutura foi desenhada para reduzir a influência direta de cada presidente dos Estados Unidos: normalmente, apenas dois mandatos expiram durante um mandato presidencial.

O caso de Lisa Cook continua nos tribunais

Lisa Cook foi nomeada por Joe Biden em 2022 e tem mandato no Conselho de Governadores até 2038. Trump tentou demiti-la há um ano, mas a Suprema Corte decidiu que o presidente não poderia retirar uma diretora do Fed sem justa causa, mediante um processo claro e provas que fundamentassem a medida.

O governo, porém, manteve o processo. A Casa Branca argumenta que uma declaração incorreta feita por Cook anos atrás em um documento ligado a uma hipoteca seria motivo suficiente para sua demissão. Ela deveria responder até esta quarta-feira à carta com os argumentos do governo, mas provavelmente continuará recorrendo à Justiça. Enquanto o caso não for concluído, Cook tende a permanecer no cargo.

Powell segue como possível foco de pressão

Powell deixou a presidência do Fed em maio, após mais de oito anos à frente da instituição, mas decidiu permanecer como diretor. Seu mandato no Conselho vai até o início de 2028, no último ano completo do atual governo Trump, o que cria uma vaga certa que o presidente poderá preencher durante o restante de seu mandato.

Também não foram totalmente encerradas as tentativas anteriores de retirar Powell. O governo abriu uma investigação criminal sobre uma reforma de prédios do Fed que ultrapassou o orçamento, mas o caso foi arquivado depois que um senador republicano ameaçou bloquear a indicação de Warsh enquanto a apuração não terminasse. A procuradora federal Jeanine Pirro afirmou, ao encerrar o inquérito, que estava sujeita a uma investigação separada do inspetor-geral do Fed, iniciada pelo próprio Powell. As conclusões dessa apuração ainda podem abrir espaço para nova pressão política.

Warsh tem apoio de Trump, mas não segue sua agenda

Trump declarou apoio a Warsh, seu indicado para a presidência do Fed, embora o novo chair tenha evitado endossar as cobranças públicas do presidente por cortes de juros. Em junho, logo após assumir, Warsh também não ofereceu indicações sobre a trajetória futura das taxas.

Trump afirmou que o Conselho de Governadores seria “talvez um pouco hostil” e estaria atrapalhando Warsh. A declaração expõe o conflito entre a preferência presidencial por juros menores e a autonomia institucional do Fed, que define sua política com base nas condições de inflação e atividade econômica.

O que a disputa pode significar para os mercados

O Federal Reserve influencia o custo do dinheiro no mundo. Quando os juros americanos sobem ou permanecem elevados, aplicações em dólar podem ficar mais atraentes, reduzindo o fluxo para mercados emergentes. Quando caem, o crédito internacional tende a ficar menos caro e ativos de países como o Brasil podem receber mais recursos, embora outros fatores também pesem.

Uma interferência percebida como excessiva poderia afetar a confiança na independência do banco central. Isso pode pressionar o dólar e os juros de mercado nos Estados Unidos, com reflexos sobre o câmbio brasileiro, o custo de importações e as expectativas para a inflação.

Próximos passos para investidores e consumidores

As próximas decisões dependerão dos tribunais, do Senado, do desfecho do caso Cook e das investigações relacionadas a Powell. A escolha de Jefferson no próximo ano e a vaga associada ao fim do mandato de Powell também serão acompanhadas como sinais sobre o grau de influência política no Fed.

Para quem investe, consome ou trabalha, o ponto central é que a composição do banco central americano pode alterar juros, dólar e condições de crédito, mesmo sem uma mudança imediata na taxa básica brasileira. O efeito sobre o bolso dependerá de como o mercado interpretar cada decisão e de sua transmissão para o câmbio, a inflação e o financiamento.

Impacto para a sociedade

A disputa pelo comando do Federal Reserve pode afetar o ritmo dos juros nos Estados Unidos, o valor do dólar e as condições de financiamento no mercado internacional. Para o brasileiro, mudanças no dólar podem influenciar preços de produtos importados e a inflação, enquanto decisões do Fed também podem alterar o fluxo de recursos para ativos do Brasil.