Desde o início do segundo mandato, Donald Trump promove uma reestruturação profunda no Departamento de Estado dos Estados Unidos e prioriza aliados políticos na escolha de representantes no exterior. A mudança ajuda a explicar a escalada da tensão com o Brasil, agravada em agosto pela revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e sinaliza uma diplomacia mais orientada por ganhos imediatos para os EUA.
Redução de diplomatas muda o funcionamento do Departamento de Estado
A política externa de Trump é descrita por analistas como transacional: em vez de priorizar compromissos de longo prazo, busca obter vantagens mais imediatas para os Estados Unidos. As guerras tarifárias e as tentativas de influenciar eleições e assuntos domésticos de outros países são exemplos dessa orientação.
Dentro do Departamento de Estado, cerca de 3 mil diplomatas, de um quadro total de aproximadamente 14 mil, pediram demissão, se aposentaram ou foram forçados a deixar os cargos nos últimos 18 meses, conforme estimativa da American Foreign Service Association (AFSA).
A associação afirma que a saída atinge profissionais com décadas de experiência em negociações, idiomas e diferentes áreas da política externa. Para a entidade, a perda desse conhecimento pode prejudicar a capacidade dos EUA de conduzir relações internacionais no longo prazo.
Governo defende uma diplomacia alinhada ao America First
O Departamento de Estado afirma que a redução do quadro faz parte de uma “reestruturação histórica” e que as demissões seguiram os requisitos legais. O porta-voz Tommy Pigott declarou que as medidas foram desenhadas para criar uma diplomacia mais eficiente, ágil e assertiva, alinhada ao princípio “EUA em primeiro lugar”, conhecido como America First.
A AFSA, porém, vê uma tentativa de politizar o serviço diplomático. Tradicionalmente, diplomatas de carreira atuam para governos de diferentes partidos e executam a política externa definida por cada presidente, mantendo uma posição institucional apartidária.
Para o governo, Trump tem o direito de escolher quem representará os interesses americanos no exterior. A administração diz estar formando uma equipe diplomática de elite comprometida com suas prioridades políticas.
Aliados políticos ganham espaço nas embaixadas
Até 10 de agosto, Trump havia indicado 113 embaixadores. A maioria era formada por nomes políticos, enquanto apenas 20 eram diplomatas de carreira. A nomeação de doadores de campanha e aliados não é inédita nos Estados Unidos, pois presidentes democratas e republicanos também recorreram a esse mecanismo.
O que diferencia o atual mandato é a proporção. Menos de 18% dos indicados são diplomatas de carreira, o menor percentual da história recente americana. Desde o governo Gerald Ford, entre 1974 e 1977, incluindo o primeiro mandato de Trump, essa participação havia ficado em torno de 60% ou mais.
Quase metade dos postos de embaixador segue sem titular
Além da troca no perfil dos indicados, a rede diplomática americana enfrenta vagas abertas. Dos 196 postos de embaixador dos Estados Unidos, 97 permanecem sem titular confirmado, segundo os dados mais recentes da associação.
O presidente indica os nomes, mas o Senado precisa aprová-los. Em alguns casos, o processo está em andamento; em outros, ainda não há candidato escolhido. A demora deixa postos estratégicos sem uma autoridade plenamente confirmada enquanto o governo redefine suas prioridades externas.
O que a mudança representa para o Brasil e para o mercado
A crise envolvendo a embaixadora brasileira ocorre nesse ambiente de maior peso político nas decisões diplomáticas americanas. Para o Brasil, isso pode tornar a relação bilateral mais dependente das prioridades diretas da Casa Branca, em vez de seguir apenas os canais tradicionais do Departamento de Estado.
Para investidores, empresas e trabalhadores, o principal efeito é o aumento da atenção sobre decisões americanas que possam atingir comércio, tarifas e relações com outros países. A reorganização não determina, por si só, mudanças imediatas em preços ou empregos no Brasil, mas ajuda a explicar por que medidas diplomáticas e comerciais dos EUA podem ser tomadas de forma mais rápida e imprevisível.
