O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, decidiu por conta própria ampliar as recompras de títulos de longo prazo nesta semana. A iniciativa buscou conter a alta dos juros no mercado americano, que havia levado os rendimentos a máximas de vários anos em meio a preocupações com o déficit, a dívida pública, a inflação e o volume de emissões de empresas de tecnologia.

Trump nega ter dado ordem ao secretário do Tesouro

Questionado na sexta-feira sobre uma eventual pressão para intervir no mercado de títulos, Trump respondeu que isso não aconteceu “de forma alguma”. Segundo o presidente, Bessent é capaz, tem bom conhecimento sobre títulos e juros e decidiu adotar a medida por iniciativa própria.

A declaração tenta afastar a interpretação de que a Casa Branca teria determinado uma ação emergencial para reduzir os custos de financiamento do governo. Ao mesmo tempo, Trump elogiou o secretário e disse que ele tem um “tato natural” para lidar com o mercado de títulos e com as taxas de juros.

Como funcionam as recompras de títulos longos

Na quarta-feira, o Departamento do Tesouro informou que aumentaria pelo menos em dobro o tamanho das recompras de papéis com prazos mais longos. Recompra de títulos é a operação em que o governo compra de volta parte da dívida que está nas mãos de investidores.

O mecanismo pode ajudar a sustentar os preços desses papéis e, consequentemente, reduzir seus rendimentos, que são os juros pagos pelo título. Como preço e rendimento se movem em direções opostas, uma demanda maior pelos títulos tende a aliviar a taxa exigida pelos investidores para financiar o governo no longo prazo.

Por que os juros americanos estavam sob pressão

Os rendimentos dos títulos vinham subindo diante do receio de que o governo precisará emitir mais dívida para cobrir um déficit orçamentário elevado. O crescimento do estoque da dívida aumenta a oferta de papéis no mercado e pode fazer os investidores exigirem juros maiores para comprá-los.

Também pesaram a inflação ainda elevada e a forte emissão de dívida por empresas de tecnologia que investem em inteligência artificial. Quando muitos emissores buscam recursos ao mesmo tempo, a disputa pelo dinheiro disponível pode elevar os custos de captação, especialmente nos prazos mais longos.

Alívio inicial perdeu força no dia seguinte

A reação dos investidores à ampliação das recompras foi inicialmente positiva, mas durou pouco. Os títulos americanos de 30 anos devolveram, na quinta-feira, os ganhos obtidos após o anúncio do Tesouro na véspera.

O movimento mostra que a operação pode aliviar temporariamente o mercado, mas não elimina as causas estruturais da alta dos juros. O déficit, o tamanho da dívida, a inflação e o calendário de novas emissões continuam influenciando a taxa que os investidores consideram adequada para financiar o governo americano.

O que Bessent pode fazer a seguir

Em entrevista na quinta-feira, Bessent afirmou estar preparado para ampliar os esforços de recompra da dívida mais cara. Ele também disse que o governo apresentaria uma nova iniciativa fiscal para enfrentar os custos elevados de captação.

Para quem investe, o próximo passo relevante será observar se as recompras terão escala suficiente para produzir um efeito mais duradouro ou se prevalecerão as preocupações com a trajetória fiscal americana. Os juros dos Estados Unidos influenciam as condições financeiras globais: taxas mais altas podem pressionar bolsas, encarecer o crédito e reduzir o espaço para aplicações de maior risco em diversos mercados, inclusive o brasileiro.