O governo de Donald Trump intensificou a pressão sobre Kevin Warsh para impedir uma eventual alta de juros pelo Federal Reserve (Fed), a dez dias da reunião marcada para 15 e 16 de setembro. A ofensiva envolve o presidente, o vice-presidente JD Vance, o secretário do Tesouro Scott Bessent e o conselheiro econômico Peter Navarro, em um momento em que o mercado atribui probabilidade de cerca de 60% a uma elevação de 0,25 ponto percentual.

Trump ameaça comércio para pressionar o banco central

Trump elevou o tom nesta sexta-feira ao ameaçar interromper o comércio com países que mantêm superávits com os Estados Unidos caso o Fed não reduza os juros. Foi a primeira vez que o presidente vinculou diretamente uma ameaça tarifária à exigência de uma política monetária mais frouxa.

A declaração veio depois de uma semana de manifestações coordenadas. Vance afirmou que o Fed deveria reduzir as taxas, enquanto Bessent argumentou que o banco central normalmente não eleva os juros durante um choque de oferta antes que apareçam efeitos inflacionários de segunda ou terceira ordem.

Conselheiro chama alta de “imprudente”

Em entrevista na sexta-feira, Navarro classificou uma eventual alta como “imprudente” e disse que ela atingiria justamente os setores que os Estados Unidos precisam desenvolver. O conselheiro também chamou de “palhaços” os integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), responsável pela definição dos juros, embora tenha afirmado que Warsh tenta fazer a coisa certa.

A pressão ocorre pouco antes das eleições legislativas de meio de mandato, em novembro. O governo enfrenta insatisfação dos eleitores com a alta dos preços e dos juros, o que aumenta o incentivo político para defender uma redução do custo do crédito.

Emprego forte reacende aposta em alta

A possibilidade de aumento ganhou força após os empregadores americanos criarem 162 mil vagas em agosto. O dado reforça a visão de que a economia ainda tem capacidade de absorver juros mais elevados, embora a decisão dependa principalmente da trajetória da inflação.

A administração Trump destaca que o índice de preços ao consumidor, em seu núcleo e anualizado pelos três meses mais recentes, avançou 1,6%. Já o núcleo do índice de preços de gastos com consumo pessoal, a medida preferida do Fed, registra alta pouco acima de 3% no mesmo tipo de cálculo. A meta oficial de inflação é de 2%.

Warsh tenta preservar a independência do Fed

Warsh declarou que o presidente não influencia suas decisões. Em depoimento ao Congresso em julho, usou a manutenção dos juros e a ausência de cortes como evidência de que o banco central continua independente. Ao mesmo tempo, reconheceu que Trump e outros políticos têm o direito de comentar a política monetária.

A situação é especialmente delicada porque o próprio Warsh já demonstrou preocupação com uma inflação acima da meta por cinco anos e disseminada entre várias categorias de consumo. A pressão pública, portanto, contrasta com os riscos que o presidente do Fed identifica nos preços.

O que a decisão pode significar para mercados e consumidores

Uma alta nos Estados Unidos tende a elevar a remuneração de títulos americanos e pode reduzir a atratividade relativa de ativos de países emergentes, além de pressionar moedas como o real. Para o consumidor brasileiro, os efeitos mais visíveis podem aparecer indiretamente no dólar, no custo de produtos importados e nas condições de financiamento de empresas.

O próximo passo será a reunião de 15 e 16 de setembro. Até lá, o mercado deve acompanhar novos sinais de inflação, emprego e as declarações de Warsh. A decisão também servirá para medir se a campanha pública do governo conseguiu alterar a política do Fed ou se o banco central manterá o foco na estabilidade de preços.

Impacto para a sociedade

A decisão do Federal Reserve afeta o custo do dinheiro no mundo e pode influenciar o dólar, os preços de produtos importados e as condições de crédito no Brasil. Se os juros americanos subirem, investimentos em renda fixa nos Estados Unidos podem ficar mais atrativos, pressionando moedas e mercados emergentes, além de aumentar o custo de financiamento para empresas e governos.