As taxas do Tesouro Direto subiram nesta sexta-feira (2), véspera do primeiro turno, acompanhando a resistência dos juros dos títulos americanos após um relatório de emprego mais fraco que o esperado. Perto do meio-dia, o Tesouro Prefixado 2032 pagava 14,20% ao ano, ante 14,15% na abertura. O movimento ocorreu apesar de dados fracos de atividade no Brasil e nos Estados Unidos, com investidores atentos também à eleição.
Payroll fraco reduz pressão por alta de juros nos EUA
O relatório de emprego americano, conhecido como payroll, veio abaixo das expectativas em setembro, e a taxa de desemprego subiu a 4,2%. Em geral, sinais de desaceleração do mercado de trabalho podem reduzir a pressão sobre os juros: com menor aquecimento da economia, o banco central dos Estados Unidos tende a ter menos necessidade de elevar as taxas para conter a inflação.
A leitura, porém, não foi uniforme. Para Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital em Nova York, a fraqueza ficou concentrada no setor público, o que torna a composição do dado mais favorável do que o número geral sugere. Ainda assim, o resultado diminuiu, na margem, a probabilidade de uma nova alta de juros pelo Federal Reserve na reunião seguinte.
Rendimento dos títulos americanos segue perto de 5,25%
O alívio nas expectativas para os juros americanos não conteve de forma consistente os Treasureis — títulos de dívida do governo dos Estados Unidos. O rendimento do papel de dez anos continuava na casa de 5,25%, nível mais alto desde 2007. A cautela com o endividamento americano continuou no radar dos investidores, mesmo após o dado de emprego.
Quando o rendimento exigido pelos investidores sobe, os preços dos títulos já negociados tendem a cair. Como os juros americanos influenciam as condições financeiras globais, essa pressão pode se refletir em outros mercados, inclusive no Brasil. O movimento ajuda a explicar por que as taxas locais voltaram a avançar ao longo da manhã, depois de recuarem nas primeiras horas.
Prefixados avançam e taxas de títulos ligados à inflação também sobem
Além do Prefixado 2032, que passou de 14,15% para 14,20% ao ano, o Tesouro Prefixado 2029 subiu de 13,83% para 13,85%. Já o Prefixado com Juros Semestrais 2037 avançou de 14,17% para 14,22%. As mudanças foram registradas entre a abertura e o meio-dia desta sexta-feira.
Nos papéis atrelados à inflação, o Tesouro IPCA+ 2050 passou de 7,06% para 7,08% mais a variação do IPCA, enquanto o IPCA+ 2040 subiu de 7,22% para 7,24% mais inflação. O IPCA+ 2032 permaneceu em 7,62%. Essas taxas representam o retorno contratado acima da inflação para quem leva o título até o vencimento; antes disso, o preço pode oscilar.
Eleição e produção industrial entram na avaliação local
O cenário doméstico também pesou nas decisões dos investidores. A produção industrial brasileira caiu 0,6% em agosto, resultado abaixo da expectativa de alta. Embora uma atividade mais fraca possa, em certas circunstâncias, favorecer a queda dos juros, o dado não impediu a alta das taxas dos títulos públicos durante a manhã.
Às vésperas da votação, o mercado avaliava ainda a pesquisa Datafolha divulgada na noite de quinta-feira. O levantamento mostrou Lula ampliando a vantagem sobre Flávio Bolsonaro em uma simulação de segundo turno, mas ainda dentro do empate técnico pela margem de erro. A incerteza sobre o resultado eleitoral contribuiu para a cautela dos investidores.
O que observar nos próximos dias
Para quem investe, taxas maiores elevam o retorno oferecido em novas compras de títulos, mas podem reduzir o valor de mercado dos papéis adquiridos anteriormente, sobretudo quando o vencimento é distante. O efeito depende do prazo e das condições de venda; por isso, a taxa exibida não deve ser confundida com ganho garantido em uma saída antecipada.
O movimento desta sexta-feira reúne fatores externos e locais, sem indicar sozinho uma tendência para os juros. Nos próximos dias, os investidores devem acompanhar o resultado do primeiro turno, novos sinais sobre a economia americana e as decisões do Federal Reserve. Esses elementos podem alterar as expectativas para os juros e, consequentemente, as taxas oferecidas pelos títulos públicos brasileiros.
Impacto para a sociedade
As taxas dos títulos públicos influenciam o custo de financiamento do governo e servem de referência para outros juros no país. A alta observada nesta sexta-feira não significa, por si só, uma mudança imediata nas parcelas de empréstimos ou nos preços ao consumidor, mas indica maior cautela do mercado diante dos riscos externos e eleitorais.
