Com o crédito mais restrito, a terra rural ganha importância como garantia para operações que financiam o agronegócio. Mais de 80% das operações de crédito ligadas ao setor teriam o imóvel rural como lastro, direta ou indiretamente, segundo avaliação apresentada em um painel sobre financiamento agrícola. O dado ajuda a explicar por que a propriedade continua no centro das estruturas que conectam produtores, fornecedores, empresas e investidores.

Por que a terra é usada como garantia

A terra tem uma característica que a diferencia de máquinas, veículos e outros bens usados na produção: ela não sofre depreciação contábil simplesmente por ser utilizada. Isso faz com que o imóvel possa funcionar como uma garantia de prazo mais longo, inclusive quando o financiamento atravessa vários ciclos agrícolas.

Isso não significa, porém, que o valor da propriedade seja fixo ou que a garantia elimine o risco da operação. O preço do imóvel pode variar conforme localização, produtividade, qualidade do solo, disponibilidade de água, infraestrutura e condições do mercado. Também é necessário verificar a documentação, o valor efetivamente aceito pelo credor e as condições para uma eventual execução.

Crédito agrícola depende do ciclo da produção

O financiamento do agro é mais complexo do que linhas em que o devedor recebe uma renda regular e previsível. No campo, o fluxo de caixa depende da data de plantio, do período de colheita, da cultura escolhida, do clima, da produtividade e do preço das commodities, como soja e milho.

Por isso, analisar apenas a existência de um imóvel como garantia não basta. O credor também precisa observar o histórico do produtor, a região de cultivo, a cadeia de fornecimento e o uso que será dado aos recursos. Uma terra valiosa pode reduzir a perda potencial, mas não assegura que a operação será paga no prazo.

Fornecedores também financiam o produtor

O crédito não chega ao campo apenas por meio dos bancos. Cerca de 80% das vendas de insumos seriam realizadas a prazo, permitindo que o produtor receba sementes, fertilizantes e defensivos antes da colheita e pague ao longo do ciclo agrícola.

Esse financiamento pode ser formalizado por instrumentos como a Cédula de Produto Rural (CPR), que representa uma promessa de entrega de produtos ou de pagamento. Outro mecanismo é a duplicata escritural, título registrado eletronicamente que documenta uma obrigação comercial entre as partes.

Mercado de capitais amplia as alternativas

Nos dois primeiros meses da safra 2026/2027, o crédito rural destinado à agricultura empresarial somou R$ 65,7 bilhões, de acordo com dados do Ministério da Agricultura. No mesmo período, as CPRs responderam por 49,2% das operações informadas pelo governo.

Além das linhas bancárias, o mercado de capitais pode oferecer estruturas como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs). A lógica é transformar recebíveis e fluxos futuros do setor em operações que possam ser financiadas por investidores, ampliando as fontes disponíveis para produtores, empresas e cooperativas.

O que o cenário exige de investidores e produtores

O aperto no crédito pode abrir espaço para investidores com horizonte de longo prazo, mas também torna mais importante a avaliação dos riscos envolvidos. A análise precisa considerar tanto o valor do imóvel quanto a capacidade de pagamento, a exposição ao clima e aos preços agrícolas e a qualidade dos contratos que sustentam a operação.

Para o agronegócio, a terra permanece um ativo de longo prazo e uma âncora relevante em momentos de menor oferta de recursos. O próximo passo é acompanhar como bancos e mercado de capitais distribuirão esse risco entre diferentes instrumentos, sem confundir a existência de uma garantia com ausência de risco de crédito.