As ações da Tenda (TEND3) caíam 4,4%, a R$ 27,27, por volta das 14h54 desta terça-feira (29), em meio a atrasos de pagamentos da Prefeitura de São Paulo e a dificuldades operacionais relacionadas à Caixa Econômica Federal. O movimento destoava do de outras construtoras de baixa renda, enquanto investidores avaliavam possíveis efeitos sobre as vendas e os recebimentos da companhia no terceiro trimestre.
Atrasos da Prefeitura somam quase R$ 75 milhões
Em documento divulgado no mesmo dia de uma visita de analistas e investidores às obras do complexo Cittá Vila Prudente, a Tenda informou ter R$ 52,7 milhões em pagamentos atrasados da Prefeitura, ligados ao programa habitacional Pode Entrar. A empresa também apontou R$ 21,79 milhões em valores adicionais de correção, juros e multa. Somados, os montantes chegam a quase R$ 75 milhões.
No empreendimento, localizado na zona Leste da capital, a construtora informou que já recebeu R$ 281,9 milhões. Ainda há R$ 31,3 milhões em atraso, além de R$ 13 milhões em correção, multas e juros; outros R$ 83 milhões têm vencimento futuro. O complexo, iniciado em meados de 2024, tem entrega prevista para novembro de 2026 e contará com 25 torres e 1.984 unidades.
Greve e regras da Caixa podem afetar vendas
A construtora afirmou que a greve de funcionários da Caixa, iniciada em 10 de setembro, represou processos burocráticos nas agências que financiam imóveis. Isso pode deslocar repasses entre meses: o dinheiro demora mais a chegar à empresa, embora a Tenda tenha dito que o fluxo de caixa do ano não deve ser afetado se a paralisação terminar logo.
Outro fator é o maior rigor da Caixa na concessão de crédito. Na prática, critérios mais exigentes podem dificultar a aprovação de compradores, sobretudo de clientes com renda informal ou mista. A Tenda também mencionou o cancelamento de contratos que não cumpram as regras para repasse, o que pode elevar pontualmente os distratos — quando uma compra é desfeita.
JPMorgan vê cautela para o terceiro trimestre
Após a visita ao Cittá Vila Prudente, analistas do JPMorgan descreveram como cauteloso o tom da companhia sobre o terceiro trimestre de 2026. O banco avalia que a velocidade de vendas entre julho e setembro deve sentir o efeito dos critérios de crédito mais rígidos da Caixa, que ainda não teriam voltado aos níveis observados em junho.
Segundo o JPMorgan, a Tenda espera cancelamentos acima da média no trimestre, principalmente pela maior exigência de pontuação de crédito e pelas restrições à consideração de renda informal na análise. A greve teria contribuído em menor grau. A combinação importa porque vendas convertidas em contratos e repasses de financiamento influenciam o ritmo de operação e a entrada de recursos na construtora.
Ação destoou de outras construtoras no pregão
No mesmo horário em que a Tenda recuava, Cury (CURY3) subia 0,62%, Direcional (DIRR3) avançava 1,55% e MRV (MRVE3) ganhava 1,54%. O contraste mostra que a pressão sobre TEND3 estava ligada a preocupações específicas da empresa, e não a uma queda generalizada entre incorporadoras voltadas à baixa renda.
O Ibovespa caía 0,1%, aos 182.907 pontos, por volta das 14h54. A queda do petróleo pressionava a Petrobras, que tem peso relevante no índice. Portanto, o desempenho negativo da Tenda ocorria em um pregão levemente desfavorável para a bolsa, mas era mais intenso que o movimento do indicador.
O que observar nos próximos dados da Tenda
Para quem acompanha a ação, os próximos sinais relevantes são a evolução dos recebimentos da Prefeitura, a normalização dos processos na Caixa e os dados de vendas e cancelamentos do terceiro trimestre. A visita às obras também teve como foco a execução do Pode Entrar, programa ao qual o Cittá Vila Prudente está vinculado.
A queda de 4,4% era uma cotação intradiária, não o resultado final do pregão. Os números divulgados apontam riscos de atraso no recebimento e de conversão de vendas, mas não determinam, por si só, o desempenho futuro da empresa ou da ação. A reação do mercado dependerá também de como esses fatores aparecerão nos resultados e na operação da companhia.
