Empreendedores terão de lidar, a partir de 2027, com um caixa mais apertado por causa do split payment, mecanismo da Reforma Tributária que deve separar o valor dos impostos no momento da venda. Ao mesmo tempo, a indústria de fundos multimercados perde espaço diante da preferência por investimentos mais previsíveis e dos juros elevados. As duas mudanças aumentam a pressão sobre empresas e investidores, em um dia de atenção aos riscos externos e ao petróleo.

Como o split payment pode mudar o caixa das empresas

Hoje, o valor recebido por uma venda pode permanecer temporariamente no caixa da companhia antes do recolhimento dos tributos. Embora esse dinheiro tenha uma destinação definida, ele ajuda a financiar despesas do dia a dia, como folha de pagamentos, fornecedores e custos de produção, especialmente em negócios com pouco capital de giro.

Com o split payment, a parcela correspondente aos impostos tende a ser separada no próprio fluxo da transação. A partir de 2027, portanto, as empresas deixarão de contar com esse montante como uma fonte provisória de liquidez. O impacto pode ser maior para empreendedores que já enfrentam juros altos, inadimplência e custos elevados de mão de obra e fabricação.

Por que a mudança exige planejamento financeiro

A principal adaptação será estruturar o caixa considerando apenas o valor efetivamente disponível após a separação dos tributos. Isso pode exigir revisão de prazos de recebimento e pagamento, formação de reservas e acompanhamento mais rigoroso das despesas recorrentes.

O risco é que uma empresa aparentemente lucrativa enfrente dificuldade para pagar compromissos no curto prazo. Se o empreendedor continuar projetando o caixa com base no valor bruto das vendas, poderá subestimar a necessidade de capital próprio ou de crédito. Em um ambiente de juros elevados, essa diferença pode aumentar o custo de manter a operação.

Juros altos reduzem o espaço dos fundos multimercados

Os fundos multimercados adotam estratégias que combinam diferentes classes de ativos, como juros, moedas e ações, buscando obter retorno em cenários variados. A classe perdeu espaço porque muitos investidores passaram a preferir alternativas com retorno mais previsível, enquanto o ambiente de juros elevados pressionou estratégias que dependem de maior risco e flexibilidade.

O movimento também atingiu gestoras tradicionais. A redução do interesse dos investidores e a dificuldade de apresentar desempenho consistente levaram nomes históricos do mercado a rever seus negócios. A questão agora é se os multimercados ainda conseguem recuperar relevância e quais estratégias podem sobreviver em um cenário de competição com aplicações mais simples e previsíveis.

Petróleo e tensão no Oriente Médio elevam a cautela

No exterior, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou medidas econômicas descritas como “sem precedentes” contra o Irã. A pressão inclui países que ofereçam apoio a Teerã e ocorre em meio às ameaças de reabertura do Estreito de Ormuz, rota importante para o transporte de petróleo.

Após o anúncio, os preços do petróleo subiam com força na manhã desta quinta-feira, 20 de agosto. Na Ásia, as bolsas fecharam em alta, acompanhando os ganhos de Wall Street na véspera. Na Europa, os mercados operavam sem direção única, enquanto os futuros de Nova York apontavam para uma abertura cautelosa.

O que acompanhar no Brasil e para quem investe

O cenário externo pode pressionar os ativos brasileiros, principalmente por causa do petróleo e das incertezas geopolíticas. A agenda doméstica é esvaziada, mas inclui o leilão de títulos prefixados do Tesouro e a reunião do Conselho Monetário Nacional. Nos Estados Unidos, investidores acompanham o balanço do segundo trimestre de 2026 do Walmart e os pedidos de auxílio-desemprego.

Para empresas, o próximo passo é antecipar o impacto do split payment no capital de giro antes de 2027. Para quem investe, a retração dos multimercados reforça a necessidade de entender como cada estratégia reage a juros, bolsa, câmbio e risco. Já consumidores e trabalhadores podem sentir efeitos indiretos caso o aperto de caixa leve empresas a reduzir investimentos, elevar preços ou buscar crédito mais caro.

Impacto para a sociedade

A mudança na forma de recolher impostos pode reduzir o dinheiro disponível no caixa das empresas a partir de 2027, pressionando negócios que dependem de capital de giro para pagar fornecedores, salários e despesas. A alta do petróleo, por sua vez, pode encarecer combustíveis e produtos transportados caso a tensão no Oriente Médio se prolongue.