Os preços da soja no Brasil subiram mais de 5% na última semana e alcançaram, no Paraná, o maior nível nominal desde abril de 2023. O movimento ocorre na entressafra, quando a disponibilidade do grão tende a ser menor, ao mesmo tempo em que exportadores e indústrias brasileiras disputam os lotes disponíveis.

Indicadores avançam em Paranaguá e no Paraná

Entre 13 e 20 de agosto, o indicador Cepea/Esalq para Paranaguá avançou 5,2%, enquanto o indicador do Paraná subiu 4,5%. Com o resultado, os dois atingiram os maiores patamares nominais diários desde abril de 2023. Em Paranaguá, a cotação se aproximou de R$ 155 por saca de 60 quilos.

“Nominal” significa que a comparação considera os valores registrados na época, sem correção pela inflação. Além dos preços de referência no Paraná e no terminal portuário, o Cepea identificou alta média de 3,8% no mercado de balcão, em que o produtor negocia sua produção, e de 3% no mercado de lotes, que reúne transações entre empresas.

Entressafra aumenta a disputa pelo grão brasileiro

A oferta disponível é menor neste período do calendário agrícola, enquanto a demanda permanece firme. Compradores estrangeiros, sobretudo a China, continuam ativos no mercado brasileiro, e as indústrias nacionais intensificaram as aquisições para recompor e garantir estoques.

Esse cenário elevou a concorrência pelos lotes que chegam ao mercado. Quando vários compradores disputam uma quantidade limitada de produto, os preços tendem a subir, principalmente se os vendedores reduzem o ritmo de comercialização e preferem aguardar melhores condições.

Produtores seguram vendas por causa do clima

Parte da retração dos vendedores está relacionada aos riscos climáticos associados ao El Niño para a próxima safra brasileira. A possibilidade de condições menos favoráveis aumenta a cautela dos produtores, que podem postergar negócios enquanto avaliam o desenvolvimento da nova temporada.

Também há atenção às condições das lavouras nos Estados Unidos, importante fornecedor global de soja. Problemas no desenvolvimento da produção americana podem reforçar a procura pelo produto brasileiro e ampliar a disputa internacional, ainda que o tamanho do impacto dependa da evolução do clima e das colheitas.

Alta beneficia produtores, mas eleva custos para a cadeia

Para os produtores que ainda têm soja armazenada, preços mais altos melhoram a receita potencial na venda. Exportadores também podem se beneficiar da demanda externa, embora o resultado final dependa de fatores como custos logísticos, câmbio e condições dos contratos.

Do outro lado, indústrias que compram o grão enfrentam matéria-prima mais cara. A soja é processada principalmente para a produção de óleo e farelo, o que pode pressionar custos em diferentes segmentos da cadeia de alimentos. O repasse aos preços finais, porém, não é automático nem imediato.

O que observar daqui para frente

Os próximos movimentos dependerão da disponibilidade da soja brasileira na entressafra, do ritmo das compras chinesas e das decisões de comercialização dos produtores. A evolução do clima no Brasil e nos Estados Unidos será outro fator central para as expectativas sobre a oferta das próximas safras.

Para quem investe, a disparada dos indicadores mostra uma combinação de demanda aquecida, oferta mais restrita no curto prazo e incerteza climática, mas não elimina o risco de reversão caso o clima melhore ou os compradores reduzam o ritmo. Para consumidores e trabalhadores do agronegócio, a principal consequência a acompanhar é se a alta ficará concentrada no mercado da commodity ou se avançará para custos industriais, alimentos e atividade rural.

Impacto para a sociedade

A alta da soja pode pressionar custos ao longo da cadeia de alimentos, especialmente para indústrias que usam o grão e seus derivados. Também aumenta a receita potencial de produtores e exportadores, mas o repasse ao consumidor depende dos estoques, do câmbio, da demanda externa e dos preços de óleo, farelo e carnes.