O aumento das taxas cobradas pela Shopee aos vendedores no Brasil melhora o ambiente competitivo para o Mercado Livre (MELI; MELI34), na avaliação do Itaú BBA. O movimento sugere que a plataforma controlada pela Sea está priorizando monetização e rentabilidade, em vez de buscar participação de mercado a qualquer custo — uma mudança relevante para investidores preocupados com uma possível guerra de subsídios no comércio eletrônico.

Taxa fixa da Shopee sobe em outubro

A partir de 1º de outubro, a Shopee elevará de R$ 4,00 para R$ 4,50 a taxa fixa cobrada dos vendedores em itens com preço inferior a R$ 80. O aumento será de R$ 0,50 por produto, sem alterações nas comissões, nos subsídios ao Pix ou nas demais faixas de preços.

O ajuste está concentrado justamente na faixa de menor preço da plataforma. O BBA estima que produtos abaixo de R$ 80 respondam por cerca de 60% do GMV — o volume bruto de mercadorias vendido — e por aproximadamente 90% das unidades comercializadas pela Shopee no Brasil.

Considerando um preço médio de venda de cerca de R$ 30 nessa faixa, a taxa total efetiva, conhecida como take rate, aumentaria aproximadamente 1,7 ponto percentual, de 33,3% para 35%. Na prática, isso equivale a uma alta de cerca de 5% na comissão média, em dólares, paga pelos vendedores desses produtos.

Por que o movimento favorece o Mercado Livre

Para o BBA, a decisão reduz a preocupação de que a Shopee pudesse continuar oferecendo subsídios agressivos para conquistar mercado. Quanto mais racional for a política de preços da concorrente, menor tende a ser a pressão para que o Mercado Livre aumente gastos ou reduza tarifas para defender sua posição.

Os analistas afirmam que a Shopee ainda permanece competitiva, mesmo após o reajuste. Nos produtos abaixo de R$ 50, o take rate total costuma ficar, em média, em cerca de 31% a 32% para o Mercado Livre, contra aproximadamente 29% para a Shopee. Na faixa entre R$ 50 e R$ 75, ambas ficam perto de 26%.

Assim, a empresa consegue extrair mais receita dos vendedores sem alterar de forma relevante sua proposta comercial. Na avaliação do banco, o fato de o aumento atingir principalmente itens de menor preço também indica confiança da administração nas atuais tendências de crescimento.

Sea reforça foco em rentabilidade no Brasil

A decisão ocorre poucas semanas depois de a Sea reiterar uma estratégia mais disciplinada e voltada à rentabilidade no mercado brasileiro. Durante a divulgação do balanço do segundo trimestre, a companhia destacou a melhora da monetização e o crescimento de 70% em um ano da receita de publicidade da Shopee.

A empresa também afirmou que ainda existe espaço para ampliar o take rate e que pretende investir de maneira disciplinada e rentável. Desde então, a sequência de decisões mostra uma preferência por aumentar a receita por vendedor, em vez de ampliar subsídios para acelerar o crescimento.

O que o investidor deve acompanhar agora

O BBA considera esse sinal de racionalidade o principal ponto positivo para o Mercado Livre, porque a competição no Brasil tem sido o maior tema de debate entre os investidores. A avaliação é de que o reajuste reduz a probabilidade de uma disputa prolongada baseada em descontos e subsídios, preocupação que pesou sobre as ações da companhia nos últimos 18 meses.

O banco mantém recomendação equivalente à compra para o Mercado Livre, com preço-alvo de US$ 2.250 para as ações MELI. Esse preço é uma projeção de analistas, não uma garantia de retorno, e depende da evolução da concorrência, do crescimento das vendas e da capacidade de cada plataforma de elevar sua rentabilidade.

Para os próximos meses, o ponto central será observar se a Shopee continuará ajustando preços e comissões de forma gradual, sem perder ritmo de expansão. Para os vendedores, o efeito imediato será um custo maior nos produtos abaixo de R$ 80; para o Mercado Livre, a mudança pode significar um ambiente menos pressionado para competir e investir.