A Selic poderá terminar 2027 entre 9,75% e 15,5%, conforme a confiança do mercado na política fiscal do governo eleito em 2026, estima o Morgan Stanley. A instituição avalia que, após as eleições, a capacidade de apresentar um plano crível para estabilizar a dívida pública será mais importante para os juros do que a simples desaceleração da economia.

Três caminhos para os juros depois das eleições

O cenário mais favorável prevê um programa fiscal plurianual realista, apoiado politicamente e compatível com o Orçamento. Nesse caso, a melhora das expectativas poderia reduzir os prêmios de risco, fortalecer o real e abrir espaço para a Selic cair dos 14% projetados para o fim de 2026 a 9,75% no fim de 2027. O dólar poderia recuar para R$ 4,50.

Na hipótese considerada mais provável, o próximo governo faria um ajuste limitado, mas suficiente para evitar uma crise de confiança. A Selic cairia gradualmente e encerraria 2027 em 11%, ainda em nível contracionista — isto é, suficientemente alto para conter a demanda e a inflação.

Por que a política fiscal influencia a Selic

Quando aumenta a percepção de risco sobre as contas públicas, investidores costumam exigir uma remuneração maior para comprar títulos do governo. Esse movimento eleva os juros de mercado, pressiona o câmbio e pode desvalorizar o real, encarecendo produtos importados e insumos usados pela economia.

A piora cambial também pode elevar as expectativas de inflação. Nesse ambiente, o Banco Central teria menos espaço para cortar a Selic, mesmo que o Produto Interno Bruto (PIB) e o emprego estivessem perdendo força. Para recuperar a confiança e impedir que a inflação se afaste da meta, poderia ser necessário voltar a elevar os juros.

O cenário de perda de confiança

No cenário negativo, o problema não seria necessariamente uma nova explosão dos gastos em 2027, mas a percepção de que o governo não teria um plano suficiente para estabilizar a dívida nos anos seguintes. O choque de confiança levaria a uma alta dos juros longos, desvalorização do real e piora das projeções de inflação.

Nessa hipótese, o dólar poderia chegar a R$ 6, enquanto a inflação permaneceria em 5% e o crescimento do PIB desaceleraria para apenas 0,2%. A Selic subiria marginalmente, atingindo 15,5% ao fim de 2027, e a dívida pública poderia alcançar 87,9% do PIB.

Atividade mais fraca não garantiria cortes rápidos

No cenário-base, o Morgan Stanley projeta desaceleração do crescimento do PIB de 2% em 2026 para 1,2% em 2027. A inflação recuaria de 5% para 4%, mas ainda ficaria acompanhada de expectativas desancoradas e de prêmios fiscais elevados, o que limitaria a velocidade dos cortes.

A taxa real, descontada a inflação, ficaria próxima de 7% com a Selic em 11%. A taxa média de desemprego também subiria de 5,6% em 2026 para 6,7% em 2027, refletindo a perda de impulso da atividade econômica e o efeito defasado da política monetária restritiva.

O que muda para famílias e investidores

Uma Selic mais alta tende a aumentar o custo de financiamentos, empréstimos e capital de giro, reduzindo o consumo e os investimentos das empresas. Também pode elevar o rendimento de aplicações pós-fixadas, mas com o custo de manter a economia mais fraca por mais tempo.

Se houver credibilidade fiscal e os juros caírem, o crédito tende a ficar mais barato e a atividade pode ganhar impulso. Para o mercado financeiro, a combinação de juros menores e expectativas mais estáveis costuma alterar a atratividade relativa da renda fixa e de ativos de risco. O próximo passo será observar o programa econômico do governo eleito e sua capacidade de transformar promessas fiscais em medidas concretas.

Impacto para a sociedade

A trajetória dos juros afeta diretamente o custo de empréstimos, financiamentos e cartões, além do rendimento de aplicações de renda fixa. Um cenário de Selic mais alta pode reduzir o consumo e o ritmo de contratação, enquanto uma queda sustentada tende a baratear o crédito, mas depende do controle da inflação e das contas públicas.