A Selic pode se aproximar de 10% ao ano no longo prazo, à medida que o Banco Central ganhe confiança na convergência da inflação para a meta de 3%, avalia Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV. Para ele, o ciclo de cortes ainda não terminou, mas a redução deve ser limitada e mais lenta do que se imaginava no início de 2026.

Juros ainda têm espaço para cair, mas pouco

A taxa básica está em 14% ao ano. Na avaliação de Padovani, o enfraquecimento do ritmo de crescimento da economia já cria espaço para alguma redução, porque os juros elevados começam a frear o consumo, os investimentos e a tomada de crédito.

Mesmo assim, o economista considera difícil uma sequência prolongada de cortes. A projeção do Banco BV para a Selic ao fim de 2026 é de 13,75% ao ano, o que corresponde a apenas uma redução de 0,25 ponto percentual na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) prevista para a próxima semana.

Inflação e cenário externo limitam a queda

O principal obstáculo é a incerteza sobre o comportamento dos preços nos próximos meses. A alta do petróleo, as oscilações do dólar e a possibilidade de novas pressões sobre a energia tornam mais difícil projetar a inflação e levar o índice de forma segura à meta de 3%.

Padovani também citou os efeitos climáticos, como o El Niño, sobre os alimentos. No exterior, a guerra entre Estados Unidos e Irã elevou as preocupações com o petróleo, enquanto uma eventual retomada das altas de juros pelo Federal Reserve poderia pressionar mercados emergentes, incluindo o Brasil.

Credibilidade será decisiva para chegar a 10%

Para o economista, a discussão deixou de ser apenas se a Selic está suficientemente alta para desacelerar a atividade. O ponto central passou a ser o grau de confiança do Banco Central de que a inflação retornará aos 3% em algum momento.

Essa confiança permitiria reduzir os juros gradualmente, mesmo que a inflação ainda não esteja exatamente na meta. “O nome do jogo é credibilidade”, afirmou Padovani. Na prática, a autoridade monetária não precisaria produzir uma queda imediata dos preços, mas demonstrar que a trajetória futura é compatível com o objetivo oficial.

Como uma Selic menor afeta investimentos e crédito

Uma redução da taxa básica tende a diminuir, com o tempo, o custo de empréstimos, financiamentos e capital de giro para empresas. O efeito não é instantâneo: depende da transmissão da política monetária pelos bancos e das condições de risco da economia.

Para quem investe, aplicações de renda fixa pós-fixadas ligadas à Selic ou ao CDI tendem a oferecer remuneração menor quando os juros recuam. Em contrapartida, a perspectiva de crédito mais barato pode favorecer o consumo, os investimentos empresariais e a valorização de ativos de risco, embora o resultado dependa também da inflação, do câmbio e do cenário fiscal.

Próximos passos exigem cautela do Copom

Em vez de sinalizar uma longa série de reduções, a tendência apontada por Padovani é que o Banco Central avalie os dados reunião a reunião. A autoridade monetária precisa equilibrar o efeito já produzido pelos juros altos com os riscos de novas pressões sobre os preços.

Para trabalhadores e consumidores, uma Selic próxima de 10% no futuro poderia aliviar gradualmente o custo do crédito e estimular a atividade, mas não representa uma mudança imediata no orçamento. Para os investidores, o cenário indica uma transição lenta: os retornos atrelados aos juros básicos podem diminuir, enquanto a inflação e a credibilidade do Banco Central continuarão determinando o ritmo dos cortes.

Impacto para a sociedade

A trajetória da Selic afeta diretamente o custo dos empréstimos, do financiamento e do crédito usado pelas famílias e empresas. Uma queda gradual tende a reduzir esses custos com o tempo, mas também diminui o rendimento de aplicações atreladas aos juros básicos e pode influenciar preços e atividade econômica.