O Banco Safra avaliou que o balanço do Banco do Brasil (BBAS3) do segundo trimestre de 2026 pouco contribui para aumentar a confiança em uma recuperação sustentável dos lucros. Embora o banco tenha registrado lucro líquido de R$ 3,9 bilhões, 3,3% acima do mesmo período e 4% superior à estimativa do Safra, os analistas consideraram a surpresa de baixa qualidade diante do avanço da inadimplência e dos impactos sobre o patrimônio.
Lucro acima do esperado não muda a avaliação
Para Daniel Vaz e Rafael Nobre, o resultado positivo ficou em segundo plano porque os principais desafios operacionais do BB continuam sem solução. Na avaliação da dupla, o trimestre não apresentou evidências suficientes de melhora consistente da rentabilidade, ou seja, da capacidade de transformar o capital do banco em lucro recorrente.
A reação negativa do mercado já era esperada. As ações chegaram a cair 4,16% durante o pregão desta quinta-feira (13), a R$ 18,21. No fechamento anterior, em 12 de agosto, os papéis haviam terminado cotados a R$ 19.
Inadimplência aumenta no cartão e no varejo
O Safra destacou uma piora significativa na qualidade dos ativos, que representa a capacidade de os clientes pagarem os empréstimos contratados. A inadimplência acima de 90 dias no cartão de crédito dobrou e alcançou 14,6%.
Além disso, a formação de inadimplência no varejo somou R$ 11,8 bilhões no segundo trimestre. Quando esses atrasos crescem, o banco precisa separar mais recursos para cobrir possíveis perdas, o que reduz o resultado gerado pelas operações de crédito.
Agronegócio concentra a principal incerteza
A carteira de agronegócio também continua pressionada. A administração informou que o índice de pagamentos em dia ficou em 74% em julho, uma deterioração em relação ao mês anterior justamente durante o período que concentra o maior volume anual de pagamentos, de R$ 20 bilhões.
Na visão do Safra, a tese de recuperação do BB depende agora de uma melhora relevante nessa carteira. O resultado estará condicionado à implementação e à execução bem-sucedidas da medida provisória que trata da renegociação das dívidas rurais. A renegociação pode aliviar a pressão imediata sobre os produtores, mas não elimina o risco de novas perdas para os credores.
Previ e Cassi pressionam o patrimônio
O banco também enfrentou ventos contrários sobre sua capacidade futura de geração de lucro. A revisão da taxa de desconto usada na avaliação atuarial das obrigações com benefícios a funcionários, como Previ e Cassi, produziu um impacto negativo de aproximadamente R$ 7 bilhões sobre o patrimônio líquido.
O BB ainda acumulou R$ 3,5 bilhões em ativos fiscais diferidos relacionados a prejuízos fiscais. O total de ativos fiscais diferidos chegou a R$ 5,3 bilhões, enquanto os passivos fiscais diferidos ficaram negativos em R$ 4 bilhões. Em termos simples, esses valores representam créditos e obrigações tributárias que podem afetar resultados futuros, mas não equivalem necessariamente a dinheiro disponível no caixa.
O que observar nas ações do Banco do Brasil
Segundo o Safra, o impacto combinado de R$ 9,3 bilhões sobre o patrimônio líquido tangível pode reduzir em aproximadamente R$ 1 bilhão por ano a margem financeira líquida, indicador que mede a diferença entre os juros recebidos pelo banco e os custos de captação. Esse efeito tende a pesar sobre o retorno obtido com o patrimônio.
O Safra mantém recomendação neutra para BBAS3 e preço-alvo de R$ 25 para o fim de 2026. Esse valor representava potencial de valorização de 32% em relação ao fechamento de R$ 19 do dia 12. Para os próximos trimestres, o mercado deve acompanhar principalmente a evolução dos atrasos no varejo, dos pagamentos do agronegócio e dos efeitos das renegociações rurais sobre as provisões e o capital do banco.
