As ações da Sabesp (SBSP3) recuperaram parte da queda registrada após o balanço do segundo trimestre: entre 20 de agosto e 24 de setembro, avançaram 15,4%, de R$ 23,31 para R$ 26,90. A reação combina uma correção da baixa provocada pelos resultados e a melhora recente das condições dos reservatórios, fatores que ajudam a explicar a mudança no humor dos investidores — sem, por si só, eliminar os desafios da empresa.
Recuperação sucede queda após o balanço
Na sessão posterior à divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026, os papéis recuaram cerca de 7%. A reação refletiu preocupações com despesas maiores e com a possibilidade de que os ganhos de eficiência da companhia demorem mais do que o esperado para aparecer. Também pesou a execução de investimentos abaixo das expectativas no curto prazo.
Com o passar das semanas, parte desse movimento foi revertida. Para Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, a recuperação parece refletir principalmente uma correção da queda anterior. Na avaliação dele, o mercado passou a considerar que os fatores que pressionaram o balanço podem estar mais concentrados no curto prazo, sem necessariamente invalidar a perspectiva de longo prazo da companhia.
Chuvas reduzem preocupação com os reservatórios
Outro elemento favorável foi a melhora do cenário hídrico. As chuvas recentes contribuíram para uma recuperação importante do nível do Sistema Cantareira, que vinha sendo acompanhado com preocupação pelo mercado. Reservatórios em situação mais confortável tendem a reduzir, ao menos temporariamente, o receio de problemas no abastecimento.
A melhora, porém, não significa que o risco tenha desaparecido. O Cantareira entrou em setembro ainda em faixa de alerta, segundo Murad. Por isso, a evolução recente pode apoiar o sentimento em relação à Sabesp, mas não equivale a uma normalização definitiva das condições de água. A valorização da ação também não pode ser atribuída somente às chuvas.
Custos e eficiência continuam no radar
O desempenho da companhia ainda depende de como ela vai conduzir sua transformação operacional após a privatização. A Sabesp tem um ciclo elevado de investimentos e metas de universalização dos serviços. Para os resultados futuros, será importante transformar esses gastos em maior eficiência, crescimento dos lucros e geração de caixa — dinheiro que sobra das operações depois dos pagamentos e investimentos.
O Itaú BBA avaliou que custos operacionais mais altos, captura de eficiência mais lenta e investimentos abaixo do previsto no curto prazo ajudaram a explicar a queda após o balanço. A leitura é que uma revisão das expectativas de resultados não implica necessariamente uma redução equivalente do valor atribuído ao negócio. Essa diferença ajuda a entender por que as ações puderam se recuperar mesmo sem o desaparecimento das dúvidas sobre a execução.
Projeções e revisão tarifária podem influenciar a ação
Entre os possíveis catalisadores está a revisão tarifária prevista para dezembro de 2026. O Goldman Sachs estima, em seu cenário-base, alta de aproximadamente 16% na tarifa de equilíbrio da Sabesp. Nas hipóteses pessimista e otimista, as projeções são de reajustes de cerca de 12% e 20%, respectivamente. São estimativas sujeitas às decisões e condições que prevalecerem na revisão.
O JPMorgan elevou o preço-alvo dos papéis de R$ 34 para R$ 35 para dezembro de 2027. O banco também reduziu sua projeção de investimentos da Sabesp entre 2026 e 2029: de R$ 89 bilhões para R$ 75 bilhões. Com essa mudança, aumentou em 15% suas estimativas de lucro líquido para 2028 e 2029. Essas projeções ajudam a mostrar quais premissas estão por trás das avaliações, mas não garantem o desempenho futuro das ações.
O que acompanhar nos próximos meses
Para quem investe, o avanço até 24 de setembro indica uma recuperação expressiva em relação ao preço de 20 de agosto, mas não apaga a queda que veio após o resultado trimestral nem resolve as questões operacionais. A cotação pode continuar sensível a novos balanços, à evolução dos custos e ao ritmo de execução dos investimentos.
Os próximos pontos de atenção são a trajetória dos reservatórios, a capacidade da empresa de converter investimentos em eficiência e os desdobramentos da revisão tarifária de dezembro. A alta recente pode ser entendida como uma combinação de correção após uma reação negativa forte e redução temporária da percepção de risco hídrico, não como confirmação de que todos os desafios foram superados.
