O empresário Ricardo Brandão vê na inteligência artificial (IA) uma oportunidade parecida com a que identificou na computação em nuvem antes da criação da Skyone, em 2013. Para ele, o interesse pela tecnologia já existe, mas muitas empresas ainda precisam preparar sistemas e dados para aproveitar seus recursos — uma etapa que pode definir como a IA será adotada nos negócios.

O paralelo entre a nuvem e a inteligência artificial

Quando Brandão e o sócio Rennan Sanchez decidiram apostar na nuvem, a tecnologia já ganhava espaço nos Estados Unidos, mas ainda era pouco conhecida no Brasil. O desafio não se limitava a oferecer uma solução: era preciso explicar às empresas por que migrar sistemas mantidos em servidores próprios poderia ser útil.

Na avaliação do empresário, a IA apresenta uma dinâmica semelhante. Há interesse, mas a adoção depende de condições que nem sempre estão prontas dentro das companhias. Sistemas e dados precisam estar preparados para que a tecnologia possa ser aplicada. Assim, a oportunidade não está apenas na ferramenta, mas também no trabalho necessário para conectá-la à operação das empresas.

Preparar dados e sistemas faz parte da adoção

O paralelo ajuda a entender por que a chegada de uma tecnologia nova não se traduz automaticamente em uso efetivo. Uma empresa pode demonstrar interesse em IA, mas ainda ter de organizar informações e adaptar os sistemas que sustentam suas atividades. Essa preparação é parte do caminho entre experimentar uma ferramenta e incorporá-la ao funcionamento do negócio.

A experiência da Skyone com a nuvem também orienta essa leitura. A companhia não tratava a migração como uma simples transferência de sistemas: Brandão afirma que era necessário compreender os softwares e buscar formas de otimizá-los. Aplicada à discussão sobre IA, essa visão põe em foco a integração com as estruturas já existentes, além do acesso à tecnologia.

O começo da Skyone exigiu educar o mercado

A trajetória da empresa dá contexto à comparação. O primeiro cliente pagante chegou sete meses depois da fundação, em 2013. Brandão relata que a computação em nuvem ainda era pouco familiar para muitas empresas no Brasil, o que exigia explicar a proposta antes mesmo de vender a solução.

O ajuste entre produto e mercado — quando a solução encontra clientes com uma necessidade real — veio por volta de 2015 e 2016. Nesse período, a Skyone alcançou R$ 300 mil em receita recorrente mensal e já atendia clientes de diferentes estados. O número indica uma receita mensal que se repetia, e não um faturamento acumulado no período.

Distribuição e conhecimento do cliente sustentaram o modelo

Além de conhecer os softwares, a Skyone apostou em parceiros e canais para chegar aos clientes, em vez de depender apenas de vendas feitas diretamente, empresa por empresa. Esse modelo buscava combinar alcance comercial com menor custo para conquistar cada cliente. A companhia recebeu seu primeiro fundo externo em 2018.

Para Brandão, a identificação de uma oportunidade não costuma vir de uma ideia isolada que já pareça brilhante. Ele descreve o processo como uma combinação de experiências e sinais de que uma necessidade ainda não está bem atendida. No caso da IA, o ponto em comum com a nuvem é a distância entre o interesse pela tecnologia e a preparação necessária para usá-la.

O que a visão de Brandão indica para empresas e investidores

A comparação é uma leitura do empresário sobre o potencial de mercado, não uma garantia de que a IA seguirá a mesma trajetória da nuvem. A experiência anterior mostra, porém, que a difusão de uma tecnologia pode depender de serviços que resolvam obstáculos práticos, como adaptação de sistemas, entendimento dos processos e acesso aos clientes.

Para quem acompanha empresas de tecnologia, a questão é observar se o interesse em IA se converte em soluções incorporadas ao cotidiano dos negócios. Para as companhias que querem adotá-la, o próximo passo é avaliar se seus dados e sistemas estão em condições de sustentar esse uso. Brandão vê aí uma oportunidade semelhante à que levou à criação da Skyone, mas a adoção ainda depende de preparar essa base.