Riachuelo surpreendeu positivamente no segundo trimestre, com lucro recorde e avanço nas vendas de vestuário, enquanto a Lojas Renner reduziu sua projeção de crescimento para 2026. A diferença mostra que juros elevados, crédito caro e consumo mais fraco afetam as varejistas de maneiras distintas — e que execução comercial e competitividade continuam tão importantes quanto o cenário macroeconômico.
Riachuelo combina crescimento de vendas e melhora de margem
A Riachuelo, controlada pela Guararapes, teve lucro líquido de R$ 167,9 milhões no segundo trimestre, alta de 36,2% em relação ao mesmo período de 2025. Foi o melhor resultado da história da companhia para um segundo trimestre.
A receita líquida consolidada cresceu 3,3% na comparação anual, para R$ 2,69 bilhões. Já o Ebitda, indicador que aproxima a geração de caixa operacional, avançou 12,7%, para R$ 460,6 milhões. A margem Ebitda, parcela da receita que se transforma nesse resultado, chegou a 17,1%, alta de 1,4 ponto percentual e recorde para o segundo trimestre.
Vestuário foi o principal motor do resultado da Riachuelo
A divisão de mercadorias teve destaque para o vestuário, cuja receita aumentou 8,9%, para R$ 1,75 bilhão. As vendas em mesmas lojas, métrica que compara unidades abertas nos dois períodos e exclui o efeito de inaugurações, subiram 7,8%. Foi o 12º trimestre consecutivo de crescimento nesse indicador.
A margem bruta do segmento chegou a 59,2%, avanço de 1,9 ponto percentual. O desempenho sugere uma combinação de maior volume de vendas e melhor execução comercial, com estoques mais equilibrados e resposta mais eficiente à demanda por produtos de inverno.
O braço financeiro Midway também apresentou evolução. A receita líquida cresceu 6,5%, para R$ 684,2 milhões, enquanto a inadimplência de curto prazo caiu de 7,5% para 6,9%. A carteira de crédito avançou 10,1%, para R$ 6,2 bilhões, sem aumento da alavancagem, que permaneceu em 0,5 vez o Ebitda.
Renner teve crescimento modesto e cortou o guidance
Na Renner, a receita líquida consolidada cresceu apenas 1% em relação ao segundo trimestre de 2025, para R$ 4,2 bilhões. As vendas em mesmas lojas do varejo avançaram 0,5%, resultado inferior às expectativas para o período. O lucro líquido ficou praticamente estável, em R$ 405 milhões, enquanto o Ebitda ajustado recuou 5%, para R$ 845 milhões.
O principal foco de preocupação foi o corte do guidance, projeção divulgada pela própria empresa para seus resultados. A Renner reduziu a estimativa de crescimento da receita varejista em 2026 de uma faixa entre 9% e 13% para um intervalo de 4% a 8%. A revisão derrubou as ações, mesmo com a companhia registrando margem recorde em alguns indicadores.
Juros e câmbio ajudam a explicar, mas não contam toda a história
Os juros ainda elevados encarecem o financiamento para consumidores e empresas. Para o varejo, isso pode reduzir compras parceladas, pressionar a inadimplência e aumentar o custo de carregar estoques. O efeito tende a ser mais forte no comércio eletrônico, que depende de crédito e de uma disputa intensa por preço e frete.
O câmbio mais favorável pode reduzir custos de produtos e insumos importados, mas a expectativa era de que esse benefício aparecesse com mais força apenas no segundo semestre. A queda das temperaturas no fim de maio, por outro lado, estimulou a venda de roupas de inverno e ajudou o setor no segundo trimestre.
Antes dos balanços, projeções apontavam crescimento de aproximadamente 6% para as vendas em mesmas lojas da Riachuelo e de cerca de 2% para a Renner. A diferença entre os resultados reforça que estoques, preços, mix de produtos e qualidade da execução podem ampliar ou limitar o impacto do ambiente econômico.
O que os resultados sinalizam para investidores e consumidores
As ações da Riachuelo subiram 2,45% no pregão de reação, para R$ 7,96. O lucro operacional superou em mais de 10% a estimativa do JPMorgan, e o Ebitda ficou 3% acima do consenso. Bradesco BBI e XP destacaram a consistência da execução e uma visibilidade maior para os lucros.
Para quem acompanha as empresas, o próximo ponto de atenção será saber se a Riachuelo sustenta o ritmo de vendas e margens e se a Renner consegue recuperar crescimento dentro do novo intervalo projetado. Para consumidores e trabalhadores, os resultados não mudam diretamente preços ou empregos, mas ajudam a mostrar como crédito caro e renda pressionada afetam as decisões das varejistas sobre promoções, estoques e expansão.
