O economista Renato Gomes, ex-diretor do Banco Central (BC), assumiu nesta terça-feira, 6 de outubro, a presidência-executiva da Associação Brasileira de Bancos (ABBC). Ele sucede Leandro Vilain e terá de conduzir a agenda da entidade em temas como estabilidade, competitividade, segurança e inovação no sistema financeiro — assuntos que influenciam o ambiente em que bancos oferecem crédito e serviços.

O papel de Gomes à frente da associação

A ABBC informou que Gomes dará continuidade às agendas já conduzidas pela entidade. A associação atua na representação do setor bancário, enquanto a supervisão e as decisões regulatórias cabem ao Banco Central. Assim, a mudança coloca um ex-integrante da autoridade monetária na liderança de uma entidade do setor, mas não altera as atribuições do BC.

Estabilidade e segurança dizem respeito à capacidade de o sistema financeiro funcionar sem que problemas em uma instituição comprometam as demais. Competitividade e inovação, por sua vez, envolvem as condições para bancos disputarem clientes e desenvolverem serviços. A associação não detalhou, no anúncio, medidas específicas que Gomes pretende adotar nem mudanças imediatas para clientes.

A experiência no Banco Central e o caso Master

Gomes foi diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC entre 2022 e 2025. Nessa função, comandava a área que recomendou, em setembro de 2025, que o órgão vetasse a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).

Dois meses depois, o BC decretou a liquidação do Master, em meio a uma grave crise de liquidez — quando uma instituição tem dificuldade para cumprir seus compromissos financeiros — e a violações de regras do sistema, entre elas a venda de carteiras de crédito fraudulentas ao BRB. Na ocasião, a ABBC apoiou a condução do processo pelo BC, após um ministro do Tribunal de Contas da União pedir explicações sobre a decisão.

Uma cadeira ainda vaga na diretoria do BC

O fim do mandato de Gomes no Banco Central, em dezembro de 2025, não foi seguido pela indicação de um substituto para a diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução. A função é ocupada interinamente por Gilneu Vivan, diretor de Regulação.

A escolha de um novo diretor depende de indicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de aprovação posterior do Senado. A cadeira vaga e a chegada de Gomes à ABBC são movimentos distintos: ele passa a liderar a associação, e não retorna ao comando do órgão regulador.

Formação e atuação fora do BC

Doutor em economia pela Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, Gomes foi professor da Toulouse School of Economics durante o período de quarentena após deixar o Banco Central. Também atuou como pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França e do Centro de Pesquisa em Política Econômica.

Atualmente, integra o comitê executivo do Grupo Consultivo de Apoio aos Pobres, centro de estudos do Banco Mundial voltado à inclusão financeira, e o Conselho Superior de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. A experiência reúne pesquisa, atuação em política financeira e participação em fóruns ligados ao setor produtivo.

O que a mudança significa para clientes e investidores

A troca na presidência da ABBC não representa, por si só, mudança nas regras bancárias, nos juros cobrados ou nos serviços oferecidos pelas instituições. Para consumidores e investidores, o efeito imediato é principalmente institucional: a associação passa a ser liderada por alguém que esteve no BC e conhece a estrutura de supervisão do sistema financeiro.

O próximo passo será acompanhar como Gomes dará sequência às prioridades anunciadas pela entidade e se apresentará propostas concretas para o setor. O BC seguirá responsável por regular e supervisionar os bancos, enquanto a ABBC poderá atuar na representação de seus interesses e na discussão de medidas para o sistema financeiro.