Dezenas de fundos passaram a atuar no mercado brasileiro de empresas em crise, transformando a recuperação judicial em uma indústria que reúne investidores especializados, administradoras judiciais e um mercado secundário de créditos. A mudança amplia as alternativas para companhias endividadas, mas também torna mais sofisticadas as negociações envolvendo credores, novos financiamentos e venda de ativos.

Fundos de estresse mudam o perfil das recuperações

A avaliação foi apresentada nesta terça-feira (18), durante a 27ª Conferência Anual do Santander, em São Paulo. O debate ocorreu um dia depois de o Grupo Casas Bahia pedir recuperação judicial na Justiça de São Paulo para reorganizar uma dívida sujeita ao processo de R$ 17,3 bilhões.

Ivo Waisberg, sócio fundador da TWK Advogados e responsável pela assessoria jurídica da varejista, afirmou que a recuperação judicial deixou de ser o “patinho feio” do mercado. Nas últimas duas décadas, o setor ganhou fundos dedicados à compra de créditos, empresas especializadas em administração judicial e investidores que acompanham a reestruturação de companhias.

“Hoje você tem dezenas [de fundos]. A coisa que mais acontece hoje em dia é um cara sair de um banco e abrir um fundo de estresse”, disse Waisberg. A expressão se refere a estruturas que compram ativos ou créditos de empresas em dificuldade, assumindo o risco de receber menos, mais tarde, em troca da possibilidade de obter retorno com a recuperação do negócio.

Como funciona o mercado secundário de crédito

O avanço também aparece no mercado secundário de crédito, no qual um credor pode vender a outro o direito de receber determinada dívida. Isso permite que bancos e investidores ajustem sua exposição ao risco, enquanto fundos especializados passam a negociar posições ligadas a empresas em recuperação.

Em algumas estruturas, o investidor que compra o crédito pode convertê-lo em participação na companhia. Assim, a dívida deixa de ser apenas uma expectativa de pagamento e pode se transformar em influência sobre a reorganização ou em participação no eventual valor criado pela empresa.

Para Marcelo Mifano, sócio da Vinci Partners, esses fundos podem atuar em companhias que ainda têm valor econômico, mas enfrentam problemas na estrutura de capital. A recuperação pode abrir espaço para a venda de ativos não essenciais e para a reorganização das operações.

Por que o caixa vem antes da solução definitiva

Apesar da sofisticação das negociações, a prioridade inicial é preservar o caixa. Waisberg resumiu a lógica ao afirmar que recuperação judicial é “caixa, caixa, caixa”. Antes de decidir como a dívida será reestruturada no longo prazo, a empresa precisa estabilizar sua capacidade de pagar despesas e manter a operação.

Thiago Franco, responsável pelo time de Reestruturação de Crédito do Atacado Santander, reforçou que o que costuma levar uma companhia à quebra não é apenas o excesso de dívida, mas a falta de dinheiro disponível no momento necessário. Uma empresa pode ter ativos e vendas relevantes e, ainda assim, entrar em colapso se não conseguir honrar compromissos imediatos.

O papel do financiamento durante a recuperação

A recuperação judicial não resolve automaticamente os problemas da empresa. Ela funciona como um ambiente de negociação entre a companhia e seus credores. Nesse período, um instrumento importante pode ser o financiamento DIP, sigla em inglês para o crédito concedido à empresa durante o processo, permitindo a entrada de dinheiro novo.

Esse recurso pode financiar o capital de giro e manter a operação enquanto se negocia o plano de recuperação. Em outra frente, a companhia pode vender uma unidade produtiva isolada, estrutura que permite ao comprador adquirir determinado ativo sem assumir necessariamente todos os passivos da empresa original.

O que levou mais empresas a buscar reestruturação

Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, descreveu um ambiente de custo financeiro elevado, desaceleração da atividade econômica e pressão sobre a geração de caixa das companhias. Quando os juros e as despesas financeiras pesam sobre o orçamento, sobra menos dinheiro para manter estoques, pagar fornecedores e honrar dívidas.

Para quem investe, a expansão desse mercado significa que créditos de empresas em crise passaram a contar com mais participantes e estruturas especializadas, mas continuam sujeitos a risco elevado e a negociações demoradas. Para as companhias, a presença desses fundos pode ampliar as fontes de financiamento e de compra de ativos. O próximo passo, em cada caso, será preservar o caixa e definir uma solução que permita manter o negócio funcionando.