Quase metade dos investidores consultados pelo Bank of America (BofA) acredita que o Ibovespa terminará 2026 abaixo dos 170 mil pontos, sinal de piora no sentimento em relação à bolsa brasileira. A avaliação aparece na pesquisa mensal do banco, que ouviu 30 gestores responsáveis por cerca de US$ 90 bilhões em ativos e também apontou maior pessimismo com os lucros das empresas.
Expectativa para os lucros piora em relação a julho
Na pesquisa de agosto, 53% dos entrevistados esperam revisões para baixo nas projeções de lucro das companhias brasileiras. Em julho, essa parcela era de 35%, uma alta de 18 pontos percentuais em apenas um mês. Revisões negativas costumam pesar sobre as ações porque reduzem o valor que os investidores atribuem aos resultados futuros das empresas.
O ambiente também ficou menos favorável à tomada de risco. Apenas 16% dos participantes pretendem aumentar a exposição a ações nos próximos seis meses, o menor percentual desde outubro de 2024. Ao mesmo tempo, o caixa das companhias está em 6% dos ativos, acima da média histórica de 5,5%, indicando uma postura mais defensiva.
Dólar mais alto e juros americanos estão entre os riscos
Para o fim de 2026, os investidores projetam o real entre R$ 5,41 e R$ 5,70 por dólar, faixa que representa uma moeda brasileira mais fraca. O câmbio afeta empresas que importam insumos, os preços de produtos comprados no exterior e, quando a alta é persistente, a própria inflação.
Na América Latina, os principais riscos externos apontados são juros mais altos nos Estados Unidos e um dólar mais forte. Quando os títulos americanos oferecem remuneração maior, parte do capital internacional pode deixar mercados emergentes, pressionando moedas e bolsas. Ainda assim, o Brasil continua ligeiramente mais bem avaliado que o México na comparação regional.
Investidores ainda esperam cortes da Selic
Apesar do pessimismo com a bolsa, 76% dos participantes esperam pelo menos um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em 2026, enquanto 53% projetam ao menos dois cortes da mesma magnitude. A pesquisa indica que inflação menor e uma perspectiva fiscal melhor seriam os principais fatores capazes de permitir um ciclo de redução mais intenso.
O cenário-base do BofA considera um corte de 0,25 ponto percentual em setembro, seguido por uma pausa prolongada para que o Banco Central avalie os efeitos da política monetária. Uma Selic menor reduz o custo de novos empréstimos e pode estimular o consumo e o investimento, mas também diminui a rentabilidade de aplicações pós-fixadas atreladas aos juros.
Preferência por crescimento revela cautela
O levantamento mostra uma migração para ações de crescimento e uma saída de papéis classificados como de valor. A mudança pode refletir o receio de que algumas empresas aparentemente baratas tenham problemas estruturais, o que faria seus preços permanecerem pressionados mesmo após uma queda.
Entre os setores, serviços públicos e financeiro continuam com as maiores posições relativas. Já bens de consumo discricionários e bens de consumo básicos permanecem entre os mais rejeitados. A diferença sugere maior preferência por segmentos considerados mais previsíveis e menor exposição a empresas dependentes da força do consumo.
O que acompanhar até o fim de 2026
A projeção de Ibovespa abaixo de 170 mil pontos não é uma previsão certa, mas uma medida do grau de cautela entre grandes investidores. O resultado efetivo dependerá da trajetória dos lucros, do câmbio, dos juros nos Estados Unidos e da evolução das expectativas para a inflação e as contas públicas brasileiras.
Para quem investe, trabalha ou consome, os próximos sinais estarão principalmente nas decisões do Banco Central, no comportamento do dólar e nas revisões de resultados das empresas. Cortes de juros podem aliviar o crédito e favorecer ativos de risco, enquanto uma moeda mais fraca e expectativas de lucro menores tendem a limitar esse efeito.
Impacto para a sociedade
As projeções de juros e câmbio podem afetar diretamente o custo do crédito, o rendimento de aplicações de renda fixa e os preços de produtos importados. Se a Selic começar a cair, empréstimos tendem a ficar menos caros, mas a renda de investimentos pós-fixados também pode diminuir. Um real mais fraco, por outro lado, pode pressionar custos e inflação.
