Os títulos prefixados do Tesouro Direto avançaram nesta sexta-feira (28), enquanto os papéis atrelados à inflação andaram na direção oposta, após o discurso duro de Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. O movimento elevou as taxas dos prefixados para até 14,55% ao ano e reduziu levemente os retornos dos títulos IPCA+, em uma reação que também levou o dólar a superar R$ 5,20.

Discurso de Warsh pressionou os juros curtos nos EUA

Em seu primeiro discurso desde que assumiu o comando do Fed, em maio, Warsh afirmou que a inflação americana ainda não está desacelerando de forma significativa. Ele disse que os dirigentes precisam ter confiança de que os preços caminham para a meta de 2% ao ano; caso contrário, a autoridade monetária ainda terá trabalho a fazer.

O presidente do Fed também avaliou que a economia permanece forte e resiliente, enquanto as condições financeiras não estão suficientemente restritivas. A mensagem foi interpretada como favorável à manutenção ou até à elevação dos juros, com mais peso para o controle da inflação do que para a fraqueza recente do mercado de trabalho.

A reação ficou concentrada nos vencimentos curtos dos títulos do governo americano. O rendimento da Treasury de dois anos, que reflete principalmente as expectativas para os próximos passos do Fed, subiu até 8 pontos-base, para 4,314%, maior nível desde julho. Já o título de 30 anos recuou 1 ponto-base, para 5,179%, e o de dez anos avançou 2 pontos-base, para 4,692%.

Prefixados avançam, mas IPCA+ recua no Tesouro

Às 11h58, a taxa do Tesouro Prefixado 2029 subia de 14,10% para 14,16% ao ano. O Prefixado 2032 avançava de 14,49% para 14,55%, enquanto o Prefixado com Juros Semestrais 2037 passava de 14,51% para 14,54%.

Nos títulos indexados ao IPCA, que combinam a variação da inflação com uma taxa fixa, o movimento era inverso. O IPCA+ 2032 recuava de 8,00% para 7,98% ao ano, e o IPCA+ com Juros Semestrais 2037 passava de 7,69% para 7,66%. O IPCA+ 2040 caía de 7,46% para 7,45%, enquanto os papéis de 2050 e 2060 permaneciam em 7,27% e 7,32%, respectivamente.

Por que os títulos reagiram de forma diferente

As taxas de prefixados respondem diretamente à expectativa para os juros nominais durante o período do investimento. Com a possibilidade de o Fed manter os juros americanos elevados, aumentou a percepção de que as condições financeiras globais continuarão apertadas, favorecendo uma reprecificação nos contratos de juros.

Já os títulos IPCA+ também dependem das perspectivas para a inflação e para os juros reais, que são aqueles acima da variação dos preços. A melhora relativa no trecho mais longo da curva americana ajudou a limitar a pressão sobre esses vencimentos, produzindo uma queda moderada das taxas no Tesouro Direto.

Quando a taxa de um título muda, seu preço de negociação varia na direção oposta. Assim, um papel comprado anteriormente pode perder valor temporariamente quando as taxas sobem, mesmo que o investidor mantenha o título até o vencimento e receba a remuneração contratada.

Mercado aumentou aposta em alta de juros nos EUA

Durante o discurso, a probabilidade de uma alta de 0,25 ponto percentual nos juros americanos em setembro subiu para 43,5%, por volta das 11h25, ante 35,7% antes da fala, segundo a ferramenta de acompanhamento do mercado. No fim de julho, essa chance estava acima de 70%, mostrando que a expectativa havia diminuído ao longo de agosto.

No Brasil, o dólar à vista voltou a superar R$ 5,20. A elevação das taxas americanas tende a tornar ativos em dólar mais atraentes e pode reduzir parte do diferencial de juros favorável ao real, em um momento em que a Selic está em 14% ao ano e há expectativa de cortes no país.

Dados domésticos e próximos sinais para os investidores

O IGP-M caiu 0,22% em agosto, após recuo de 1,16% em julho, e acumulou alta de 2,16% em 12 meses. O índice de preços ao produtor também recuou 0,83% em julho, embora registre alta de 1,94% em 12 meses. Na B3, as opções de Copom indicavam 88,5% de probabilidade de corte de 0,25 ponto percentual da Selic em setembro.

O próximo dado relevante da agenda brasileira é o Caged de julho, previsto para esta sexta-feira (28), que mostrará a abertura de vagas formais. No exterior, os investidores também acompanham a confiança do consumidor americano. Esses indicadores podem alterar as expectativas para os juros nos dois países e, consequentemente, influenciar as taxas dos títulos públicos, o câmbio e o custo do crédito.

Para quem investe, a sessão reforça que diferentes títulos de renda fixa podem reagir de maneira distinta ao mesmo evento. Para consumidores e empresas, juros americanos mais altos podem pressionar o dólar e as condições de financiamento, enquanto a trajetória da Selic continuará sendo decisiva para crédito, consumo e aplicações no Brasil.

Impacto para a sociedade

A possibilidade de juros mais altos nos Estados Unidos pode fortalecer o dólar e encarecer produtos importados, pressionando custos e inflação no Brasil. No mercado doméstico, mudanças nas expectativas para a Selic afetam o crédito, os financiamentos e o rendimento de aplicações de renda fixa.