A Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) realizaram, nesta segunda-feira (10), uma operação para aprofundar as investigações sobre supostas irregularidades na aplicação de R$ 97 milhões do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió (Iprev) em operações financeiras do Banco Master. A suspeita é de que o dinheiro da previdência municipal tenha sido investido de forma arriscada e com indícios de direcionamento, o que coloca em xeque a segurança dos recursos que garantem a aposentadoria dos servidores da capital alagoana.

O que a operação desta segunda-feira apura

Oito mandados de busca e apreensão expedidos pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), foram cumpridos em cidades de Alagoas e São Paulo. Os alvos são seis investigados ligados à gestão do Iprev e à consultoria contratada pelo instituto, além das sedes do Iprev e da empresa Crédito & Mercado de Valores Mobiliários LTDA.

Entre os alvos estão o atual secretário de Fazenda de Maceió, João Felipe Alves Borges, que integrava o Conselho de Administração do Iprev à época dos fatos; o ex-diretor-presidente do instituto, Ronnie Reyner Teixeira Mota; o ex-coordenador-geral de Investimentos, Gustavo Antônio Rodrigues de Souza; um dirigente da consultoria Crédito & Mercado, Renan Foglia Calamia; além de outros dois servidores envolvidos na área de investimentos.

O papel do Banco Master no caso

O Banco Master, pertencente ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, foi liquidado extrajudicialmente em novembro de 2025 por determinação do Banco Central. Na ocasião, o BC informou que a instituição havia violado normas do Sistema Financeiro Nacional e enfrentava uma grave crise de liquidez.

A liquidação extrajudicial é um processo administrativo em que o BC assume o controle da instituição para apurar prejuízos e tentar preservar recursos de credores e investidores. Esse histórico de quebra do banco é o pano de fundo das suspeitas sobre as aplicações feitas pelo Iprev.

As suspeitas de gestão fraudulenta

Segundo a PF, a consultoria Crédito & Mercado foi contratada pelo Iprev e teria participado do credenciamento, da elaboração de análises e da formação documental das operações com o Master. Isso caracterizaria uma “terceirização indevida da competência administrativa” do instituto, que terceirizou decisões que deveriam ser tomadas internamente, com base em critérios técnicos.

As investigações apontam que as suspeitas recaem sobre duas aplicações em letras financeiras — títulos de renda fixa emitidos por bancos para captar recursos — feitas em dezembro de 2023 e maio de 2024. Em sua decisão, o ministro André Mendonça destacou que as Autorizações de Aplicação e Resgate (APRs) teriam sido preenchidas com justificativas genéricas e padronizadas, sem estudo comparativo de alternativas, análise suficiente de risco de crédito ou avaliação de liquidez. Também não teria havido exame da cláusula de subordinação — que, em caso de quebra do banco, coloca o investidor em fila de recebimento atrás de outros credores, elevando o risco do título.

O que a Justiça determinou

Além das buscas e apreensões, Mendonça decretou a indisponibilidade de bens móveis e imóveis e de valores dos seis investigados, até o limite global de R$ 97 milhões — valor que corresponde ao montante aplicado no Master. A medida busca garantir que, se confirmadas as irregularidades, haja recursos para ressarcir o prejuízo ao fundo previdenciário dos servidores.

Os agentes federais estão autorizados a apreender computadores, telefones, documentos, contratos e comprovantes financeiros em endereços residenciais e comerciais ligados aos investigados. O material será usado para esclarecer as circunstâncias do processo de credenciamento, cotação, análise de risco, governança e tomada de decisão que antecederam os investimentos.

O que vem a seguir

Agora, a PF e a CGU devem cruzar os documentos apreendidos com as movimentações financeiras já mapeadas para confirmar se houve gestão fraudulenta e se os envolvidos agiram de forma coordenada para direcionar os recursos ao Master. A prefeitura de Maceió e os investigados ainda não se manifestaram publicamente.

Para quem acompanha o tema, o caso é um lembrete prático dos riscos de investimentos em crédito privado, especialmente quando feitos por gestores públicos sem critérios rigorosos. Fundos de previdência precisam priorizar segurança e liquidez, pois pagam benefícios de longo prazo e não podem se expor de forma desproporcional a ativos de alto risco. O desfecho da investigação deve reforçar o debate sobre a governança desses institutos e a fiscalização de consultorias contratadas por eles.

Impacto para a sociedade

O caso afeta diretamente os servidores públicos municipais de Maceió, pois envolve recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões. Se as irregularidades forem confirmadas, o prejuízo pode comprometer a saúde financeira do instituto de previdência e exigir reforço do orçamento municipal para cobrir o rombo — ou seja, dinheiro que poderia ir para saúde, educação e outros serviços públicos. A situação também acende um alerta sobre a necessidade de mais transparência e rigor técnico na gestão de fundos de previdência em todo o país.