O conselho de administração da Petrobras deve discutir nesta sexta-feira (21) a possibilidade de revisar a política que permite vender combustíveis abaixo da paridade internacional, após a descoberta de petróleo no poço Morpho, na Margem Equatorial. O tema ganhou força porque a nova fronteira exploratória pode ampliar o potencial de produção da companhia no longo prazo, enquanto a estatal enfrenta dúvidas sobre a receita que vem deixando de capturar com os preços domésticos.

Descoberta coloca política de preços novamente em debate

A Petrobras mantém a gasolina abaixo da faixa de preços de referência internacional desde o início da guerra no Oriente Médio, por meio de subsídios. O diesel também passou a ser vendido abaixo desse intervalo depois que os subsídios ao combustível foram reduzidos em julho.

A paridade internacional funciona como uma referência baseada no preço do combustível no exterior, no custo de trazer o produto ao Brasil e na cotação do dólar. Quando os preços internos ficam abaixo desse nível, a Petrobras absorve parte da diferença, reduzindo a receita obtida por litro vendido. A discussão no conselho será se a política atual permite recuperar essa perda até o fim de 2026.

Por que a defasagem preocupa investidores

A continuidade do conflito internacional mantém a incerteza sobre os preços do petróleo e dos derivados. Ao mesmo tempo, o governo ainda não anunciou novos subsídios, o que aumenta a dúvida sobre quem arcaria com a diferença caso a gasolina e o diesel permaneçam abaixo da referência externa.

O debate ocorre enquanto a Petrobras tenta conciliar objetivos comerciais com um robusto plano de investimentos, especialmente na exploração e produção. Preços artificialmente menores podem aliviar o consumidor no curto prazo, mas reduzem o caixa disponível para investimentos e podem pressionar a capacidade de a companhia compensar a receita perdida ao longo do mandato de 2026.

Margem Equatorial tem potencial, mas não gera produção imediata

A descoberta de hidrocarbonetos no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas, foi considerada um marco para a Margem Equatorial. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que há evidências da presença de petróleo, mas ainda será necessário determinar o volume recuperável e a viabilidade econômica da área.

A companhia aguarda autorização ambiental para perfurar outros três poços no mesmo bloco e planeja mais cinco poços em áreas vizinhas. Mesmo em um cenário positivo, o primeiro óleo da região só poderia ser produzido entre 2032 e 2036, após novos testes, perfurações, aprovações regulatórias, declaração de comercialidade e decisão de investimento. Portanto, a descoberta melhora o horizonte de reservas, mas não resolve a pressão de caixa sobre os preços em 2026.

Conselho também avalia apoio financeiro à Braskem

O segundo assunto sensível da reunião é a situação financeira da Braskem. A Petrobras avalia conceder prazo mais longo, de até seis meses, para o pagamento de matérias-primas fornecidas à petroquímica. A medida poderia representar um benefício estimado em cerca de US$ 600 milhões para o capital de giro da Braskem.

A empresa enfrenta um ciclo prolongado de baixa na indústria petroquímica e os efeitos financeiros do caso das minas de sal-gema em Alagoas. Também avalia pedir recuperação extrajudicial para reestruturar mais de US$ 10 bilhões em dívidas distribuídas entre Brasil, Estados Unidos e Europa.

O que acompanhar depois da reunião

Para quem investe em Petrobras, os principais sinais serão a eventual revisão da política de preços, a forma de compensar a defasagem atual e o impacto de qualquer apoio à Braskem sobre o caixa da estatal. Para consumidores e empresas, a definição ajudará a indicar se gasolina e diesel continuarão protegidos das oscilações externas ou se voltarão a acompanhar mais de perto petróleo e câmbio.

O próximo passo da Margem Equatorial também será relevante, mas seus efeitos econômicos estão distantes. Antes de gerar petróleo comercial, a região ainda depende de licenças, novas perfurações e comprovação de que a reserva pode ser explorada de forma rentável.

Impacto para a sociedade

A política de preços da Petrobras pode afetar diretamente o valor da gasolina e do diesel no país. Se a empresa reduzir o período em que vende os combustíveis abaixo da paridade internacional, os preços internos poderão acompanhar mais de perto as variações do petróleo e do câmbio, com possíveis efeitos sobre o custo de transporte, alimentos e outros produtos. A decisão também influencia a capacidade da estatal de investir em novas reservas e manter empregos na cadeia de petróleo.