O ouro fechou esta segunda-feira (24) no maior nível desde maio, cotado a US$ 4.697,80 por onça-troy, após superar brevemente a marca de US$ 4.700 durante o pregão. A alta de 0,36% na Comex foi sustentada pela tensão entre Estados Unidos e Irã e pela busca por proteção diante das incertezas envolvendo os títulos da dívida americana, os chamados Treasuries.
O que levou o ouro novamente para perto de US$ 4.700
O aumento da tensão geopolítica entre Washington e Teerã reforçou a procura por ativos considerados mais seguros em momentos de instabilidade. O ouro não depende do resultado financeiro de uma empresa nem do pagamento de juros por um governo específico, por isso costuma receber fluxo de investidores quando crescem os riscos políticos e econômicos.
O movimento também refletiu o desconforto com a situação fiscal dos Estados Unidos. A preocupação é que a necessidade de financiar os gastos e a dívida do país aumente a oferta de títulos no mercado, pressionando seus preços e influenciando os juros pagos pelos Treasuries. Esse ambiente pode reduzir a confiança no dólar e favorecer o metal, negociado na moeda americana.
Como os Treasuries influenciaram a busca pelo metal
O Tesouro americano informou que as operações de recompra de títulos serão retomadas em setembro. Nesse tipo de operação, o governo recompra papéis que estão no mercado, uma medida que pode ajudar a sustentar os preços dos títulos e alterar a quantidade de dívida disponível para negociação.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, reafirmou o cronograma nesta segunda-feira. Fontes citadas pela imprensa americana apontaram ainda que o governo pode usar sua Conta Geral do Tesouro, de quase US$ 1 trilhão, para ajudar a financiar planos de aumento das compras de títulos públicos. A perspectiva de suporte ao mercado de Treasuries contribuiu para levar o dólar a mínimas de vários meses na semana passada, quando o ouro avançou mais de 5%.
Mercado aguarda inflação e fala do Federal Reserve
Além dos fatores geopolíticos e fiscais, os investidores estão ajustando posições antes de eventos importantes nos Estados Unidos. O principal deles é o índice de preços de gastos com consumo, conhecido como PCE, previsto para quarta-feira (26). O indicador é acompanhado de perto pelo Federal Reserve, o banco central americano, para avaliar a trajetória da inflação.
Na sexta-feira (28), a atenção se volta ao simpósio de Jackson Hole, onde Kevin Warsh fará seu discurso de estreia. A fala pode oferecer sinais sobre a condução dos juros americanos. Quando os juros reais — descontada a inflação — sobem, o ouro tende a perder atratividade, porque o metal não paga rendimentos. Quando caem ou surgem dúvidas sobre a política monetária, a pressão sobre o ouro costuma diminuir.
O paralelo com outros episódios de tensão
Para a SG Markets, o desconforto entre investidores de títulos e instituições lembra o comportamento observado após o anúncio de tarifas pelo presidente Donald Trump. Naquele episódio, o dólar perdeu força ao mesmo tempo em que o ouro avançou, combinação que voltou a aparecer no radar dos mercados.
A lógica é que a desvalorização do dólar torna o ouro mais barato para compradores que usam outras moedas, aumentando a demanda internacional. Ao mesmo tempo, a procura por proteção pode acelerar a alta do metal, especialmente quando a tensão externa se combina com dúvidas sobre as contas públicas americanas.
O que observar a partir de agora
Para quem acompanha investimentos, os próximos movimentos dependerão principalmente do PCE, das indicações de Kevin Warsh e da evolução das relações entre Estados Unidos e Irã. Dados de inflação mais fortes podem manter os juros americanos elevados e limitar o avanço do ouro; já uma escalada geopolítica ou novas dúvidas fiscais podem sustentar a procura pelo metal.
O fechamento em US$ 4.697,80 mostra a força recente do ouro, mas não elimina a volatilidade. O preço pode reagir rapidamente ao dólar, aos rendimentos dos Treasuries e às declarações de autoridades. Esses fatores também influenciam as condições financeiras globais e, indiretamente, o custo de ativos negociados em outras moedas.
