O ouro voltou a roubar a cena nos mercados globais na última semana, com a maior valorização semanal desde janeiro. O contrato mais líquido do metal para dezembro fechou a sexta-feira (7) em alta de 2,33%, cotado a US$ 4.399,7 por onça-troy na Comex, acumulando um avanço de 8,6% em cinco dias. A prata também subiu forte, com alta de 3,07%, a US$ 63,499. O movimento marca um retorno do metal ao seu papel clássico de proteção, depois de um período em que ele parecia indiferente às tensões geopolíticas e à aversão a risco.
Dois gatilhos para a disparada
O salto do ouro foi puxado por dois fatores imediatos. O primeiro foi o payroll, o principal relatório de empregos dos Estados Unidos, que surpreendeu ao mostrar o fechamento de 23 mil vagas em julho, sinalizando desaceleração do mercado de trabalho norte-americano. Com isso, o mercado passou a apostar que o Federal Reserve (Fed) deve manter os juros entre 3,50% e 3,75% ao ano na reunião de setembro. Juros estáveis ou em queda tendem a aumentar a atratividade de ativos que não pagam rendimentos periódicos, como o ouro, já que o custo de oportunidade de mantê-los diminui.
O segundo gatilho foi a escalada das tensões no Oriente Médio, que voltou a acionar os alarmes de proteção entre investidores. Em cenários de incerteza, o ouro historicamente se fortalece como reserva de valor.
O que está por trás da busca por ouro
Além dos fatores conjunturais, há uma camada estrutural que sustenta a alta. A consultoria Capital Economics destaca que, após a recente intervenção do governo dos EUA no mercado de câmbio japonês (o iene), aumentou a percepção de que autoridades americanas podem pressionar outros países a evitar a venda de ativos denominados em dólar. Isso eleva o apelo de ativos alternativos ao alcance do dólar, como o próprio ouro.
A consultoria ressalta que a demanda de bancos centrais deve continuar sendo uma fonte constante de procura pelo metal, mesmo com a desaceleração das compras no início do ano, quando os preços subiram de forma especulativa. O ouro se mostra atraente em cenários de riscos fiscais, inflacionários e geopolíticos elevados.
O papel do Banco da China
Um movimento silencioso reforça essa mudança: o Banco do Povo da China (PBoC) tem acumulado reservas de ouro em Hong Kong, acelerando uma tendência de trazer para casa suas reservas do metal que estavam em Londres. Esse reposicionamento indica que grandes bancos centrais seguem vendo o ouro como proteção contra riscos globais, mesmo com as recentes flutuações de preço.
Para a Capital Economics, essa capacidade de operações cambiais sem despertar preocupações do governo americano pode dar novo impulso à demanda institucional e sustentar os preços no médio e longo prazo.
O que esperar daqui para frente
Para o investidor, o retorno do ouro ao centro das atenções sinaliza um ambiente em que a combinação de dados econômicos fracos nos EUA e incertezas geopolíticas tende a manter o metal em destaque. O próximo capítulo será definido pela reunião do Fed em setembro: se os juros forem mantidos no patamar atual, o ouro pode continuar encontrando suporte. No entanto, movimentos de realização de lucro após altas fortes são comuns, e a volatilidade deve permanecer elevada. A decisão de alocar ou não em ouro cabe a cada investidor, considerando seu perfil e horizonte.
