O novo presidente da B3, Christian Egan, classificou a falha técnica que atrasou a abertura dos mercados em 31 de julho como um “chamado à ação” e reconheceu que a companhia ficou abaixo do padrão esperado pelo mercado e por sua própria administração. A declaração sinaliza que a robustez operacional — a capacidade de manter sistemas funcionando mesmo diante de problemas — será uma das prioridades da nova gestão.

CEO admite falha e promete acelerar melhorias

Em sua primeira teleconferência de resultados do segundo trimestre à frente da B3, Egan afirmou que o episódio está sendo acompanhado diretamente pela alta liderança. Segundo ele, a empresa já iniciou medidas para aprimorar procedimentos operacionais e não trata a pane como um assunto encerrado.

O executivo disse que dedicou as primeiras semanas no cargo a conversas com clientes, funcionários, reguladores e outros participantes do mercado. A estratégia da companhia, porém, permanece inalterada: a intenção é acelerar a execução do plano existente, baseado em proximidade com clientes, tecnologia e desenvolvimento de pessoas.

B3 não prevê aumento relevante nos investimentos

O diretor financeiro da B3, André Milanez, afirmou que a companhia já tomou providências para reduzir o risco de repetição da falha. Questionado sobre a possibilidade de elevar os investimentos por causa do incidente, ele disse que, neste momento, não espera um aumento significativo dos desembolsos.

A empresa investe aproximadamente 10% da receita líquida em tecnologia, modernização de plataformas e desenvolvimento de produtos. A resposta à pane deverá ocorrer principalmente pela antecipação de projetos já planejados e pela redistribuição de recursos internos, sem impacto relevante esperado nos níveis de investimento ainda em 2026.

Agosto começa com volumes mais fortes de negociação

A evolução dos volumes negociados também foi um dos principais temas da conversa com analistas. Milanez lembrou que julho costuma ser mais fraco por causa das férias no Brasil e no hemisfério Norte. Historicamente, os negócios ficam entre 10% e 15% abaixo da média dos seis meses anteriores nesse período.

Em anos eleitorais, a queda costuma se aproximar de 20%, mas geralmente é seguida por uma recuperação mais intensa. De acordo com a administração, esse movimento já começou em agosto, que registra volumes fortes até agora. A expectativa é que a proximidade das eleições presidenciais mantenha elevado o interesse dos investidores e a oscilação dos preços nos próximos meses.

Maior volume de negociação tende a elevar as receitas ligadas à operação dos mercados, embora o resultado também dependa do tipo de ativo negociado. A participação do varejo, as operações automatizadas de alta frequência e o crescimento das opções influenciam quanto a B3 consegue faturar em cada período.

Diversificação reduz dependência do ciclo da Bolsa

A administração também destacou que cerca de metade da receita da B3 já vem de negócios recorrentes e menos dependentes do comportamento diário dos mercados. Essas linhas cresceram 17% na comparação anual, ajudando a compensar eventuais oscilações nas receitas de ações e derivativos.

A diversificação é uma parte central da estratégia adotada pela companhia nos últimos anos. Na prática, ela busca reduzir a exposição da B3 aos períodos de menor negociação, quando investidores movimentam menos ações e contratos. Por isso, a evolução das receitas recorrentes pode suavizar o impacto de ciclos de baixa atividade.

O que observar na execução da nova gestão

Para quem investe em ativos ligados ao mercado brasileiro, o ponto mais importante agora é acompanhar se as medidas anunciadas conseguem melhorar a estabilidade das plataformas de negociação sem exigir uma expansão relevante dos custos. Uma nova interrupção pode afetar a execução de ordens e a confiança dos participantes, enquanto uma operação mais estável reforça a previsibilidade do ambiente de negócios.

Os próximos meses devem combinar a cobrança por avanços operacionais com a expectativa de volumes maiores durante o período eleitoral. A B3 também terá de mostrar, nos resultados seguintes, se o crescimento das receitas recorrentes e a aceleração de iniciativas tecnológicas são suficientes para sustentar a estratégia sem alterar de forma significativa o orçamento de investimentos.