O número de mulheres com investimentos na B3 cresceu 83% nos últimos cinco anos e ultrapassou 1,48 milhão, mas a poupança continua mais popular entre elas. Os dados do levantamento “Elas Pagam a Conta”, divulgado em 24 de setembro durante o evento Fin4She, mostram que a expansão da presença feminina na bolsa ainda convive com escolhas mais conservadoras e diferenças de acesso a patrimônio.
Ações ainda atraem uma parcela menor das mulheres
Apesar do avanço no número de investidoras, apenas 1,5% das mulheres investem em ações, ante 4,9% dos homens, segundo o estudo. A diferença mostra que o crescimento da participação na bolsa não significa que o investimento em renda variável já seja comum entre elas. O levantamento também estima que mais de 1 milhão de mulheres investem no Tesouro Direto.
A caderneta de poupança, por sua vez, é usada por 31,6% das mulheres. Entre os homens, o percentual é de 27,2%. Os dados apontam uma preferência maior feminina por essa aplicação, embora não indiquem, por si só, que todas as mulheres tenham o mesmo perfil ou tomem decisões financeiras pelas mesmas razões.
O destino do dinheiro influencia o risco assumido
Dirlene Silva, economista e fundadora da DS Estratégias de Educação e Inteligência Financeira, afirmou no evento que a escolha por aplicações mais seguras tem relação com a finalidade do dinheiro. Segundo ela, parte dos recursos administrados pelas mulheres já está comprometida com despesas e objetivos familiares, como a faculdade dos filhos. Quando o capital tem um destino definido e não pode ser perdido, a margem para aceitar oscilações diminui.
Essa diferença ajuda a entender por que a composição de uma carteira não depende apenas de conhecimento ou disposição para investir. Ações podem variar de preço, enquanto aplicações consideradas mais conservadoras tendem a ser procuradas por quem prioriza previsibilidade e preservação dos recursos. O estudo ressalta, portanto, que a concentração em ativos seguros não deve ser interpretada automaticamente como falta de interesse ou capacidade para assumir riscos.
Renda menor limita a formação de patrimônio
O levantamento também relaciona a participação nos investimentos às desigualdades de renda. Embora 47,5% das mulheres tenham ensino superior, ante 17,8% dos homens, elas recebem salários 21% menores que os deles quando ocupam o mesmo cargo, de acordo com os dados apresentados pela pesquisa.
A diferença aparece também entre as pessoas mais ricas: mulheres representam 31% desse grupo, enquanto os homens correspondem a 69%. Ter menos recursos disponíveis reduz a possibilidade de acumular patrimônio e de direcionar uma parte dele a investimentos sujeitos a oscilações. Assim, a distância na bolsa reflete não apenas escolhas individuais, mas também as condições econômicas que moldam quanto cada pessoa consegue guardar.
Maternidade e gastos cotidianos pressionam o orçamento
O estudo aponta que a chegada do primeiro filho tem impacto de 24% no salário da mulher. Entre as mães com três ou mais filhos, o efeito chega a 40%. Com menos renda disponível, pode ficar mais difícil formar uma reserva e manter aplicações de longo prazo, especialmente quando há despesas familiares a cobrir.
As autoras também destacam os chamados “gastos invisíveis”, como lanches dos filhos e materiais escolares. São despesas pequenas e dispersas, que podem ficar fora do planejamento mensal, mas se acumulam e reduzem o dinheiro disponível. A pesquisa associa esse peso financeiro à dificuldade de poupar e construir patrimônio, e não a gastos com itens supérfluos.
O que os números indicam para quem investe
O avanço de 83% na B3 mostra que mais mulheres passaram a investir em bolsa nos últimos cinco anos, mas a diferença em relação aos homens e a popularidade da poupança revelam que a participação ainda é desigual. Para interpretar esses dados, é importante considerar tanto o perfil de risco quanto a renda, as responsabilidades familiares e o espaço que sobra no orçamento depois das despesas essenciais.
O levantamento não aponta um próximo passo específico para as investidoras. Seus dados, porém, ajudam a acompanhar se o aumento da presença feminina na bolsa vem acompanhado de maior acesso a patrimônio e a diferentes tipos de aplicação. Para cada pessoa, a escolha entre poupança, Tesouro Direto e ações depende de objetivos, prazo e tolerância às oscilações — fatores que os números gerais não substituem.
