O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que empresas que distribuíram dividendos sem reforçar o próprio capital contribuíram para as dificuldades financeiras que levaram grandes companhias a buscar reestruturações. Para ele, a falta de capitalização reduziu a capacidade de enfrentar juros elevados, mudanças nos mercados e investimentos que acabaram pressionando os balanços.
Dividendos distribuídos reduziram a proteção financeira
Mercadante resumiu o diagnóstico ao dizer que “muitas empresas se apropriaram de dividendos e não se capitalizaram”. Na prática, quando uma companhia distribui parcela elevada do lucro aos acionistas, deixa menos recursos dentro do negócio para financiar investimentos, reduzir dívidas ou absorver períodos de queda nas receitas.
Essa decisão não explica sozinha as recuperações judiciais e extrajudiciais recentes. O presidente do BNDES afirmou que as crises têm origens diferentes, incluindo falhas de gestão, mudanças estruturais nos setores e o custo elevado do crédito. A combinação desses fatores, porém, pode tornar mais vulnerável uma empresa que já tenha saído de um período de expansão com pouca folga financeira.
Juros altos aumentaram o peso das dívidas
O dirigente também afirmou que muitas companhias investiram acreditando na continuidade de um cenário econômico mais favorável e foram surpreendidas por taxas de juros elevadas. O encarecimento do crédito aumenta as despesas financeiras e reduz o dinheiro disponível para manter operações, contratar, investir ou renegociar compromissos.
Esse efeito é especialmente relevante para empresas com alto endividamento. Mesmo quando a receita continua crescendo, uma parcela maior do caixa pode ser direcionada ao pagamento de juros. Se a geração de recursos não acompanha essa despesa, a companhia pode precisar vender ativos, captar capital ou renegociar suas obrigações.
Transformação do varejo também pesou sobre companhias
Entre os fatores estruturais, Mercadante citou a transformação provocada pelo avanço do comércio eletrônico e por novas formas de competição. Segundo ele, algumas empresas não perceberam a velocidade dessas mudanças e não adaptaram seus modelos de negócio ao novo ambiente.
A alteração no comportamento do consumidor afeta vendas, margens, logística e necessidade de investimentos. Companhias que mantêm estruturas desenhadas para um mercado anterior podem perder eficiência justamente quando o crédito está mais caro e há menos espaço para financiar uma transição prolongada.
BNDES tenta agir antes da recuperação judicial
Mercadante disse que o BNDES procura atuar de forma discreta para encontrar soluções antes de uma empresa recorrer formalmente à recuperação judicial, processo usado para reorganizar dívidas sob supervisão da Justiça. Ele citou a Braskem e a Raízen como exemplos de companhias com as quais o banco trabalhou para evitar essa etapa.
A Braskem atravessa uma recuperação extrajudicial, enquanto a Raízen enfrenta elevada alavancagem e busca reduzir o endividamento. O presidente do banco não detalhou as negociações, mas afirmou que o aumento dos pedidos de recuperação mostra como os juros estão pressionando os balanços empresariais.
O que vem a seguir para empresas e investidores
Mercadante avaliou que o sistema bancário brasileiro é sólido, mas alertou que a permanência dos juros em patamar elevado também pode atingir os balanços dos bancos, à medida que mais empresas tenham dificuldade para pagar suas dívidas. Ele defendeu uma taxa de juros mais próxima dos padrões internacionais.
Para quem investe, o episódio reforça a importância de observar não apenas lucro e distribuição de dividendos, mas também o nível de endividamento, a geração de caixa e os recursos retidos para financiar a operação. Para trabalhadores e consumidores, reestruturações podem afetar empregos, fornecedores e serviços, embora os efeitos dependam da situação de cada empresa e do acordo firmado com credores.
