Documentos da investigação sobre o Banco Master revelam que Daniel Vorcaro mantinha um grupo de WhatsApp com dois servidores do Banco Central para discutir documentos, preparar reuniões e buscar orientação sobre assuntos de interesse do banco. A Polícia Federal afirma que os funcionários, que ocupavam cargos de comando na supervisão bancária, defendiam os interesses da instituição dentro da autarquia e recebiam vantagens em troca.
Como funcionava o grupo criado no Banco Central
O grupo, chamado “Master”, foi criado em 2 de outubro de 2025 por Belline Santana, então chefe do Departamento de Supervisão Bancária, o Desup. Também participavam Vorcaro e Paulo Sérgio Neves de Souza, que ocupava o cargo de chefe adjunto do mesmo departamento.
“Criei esse grupo, no intuito de facilitar nossa interlocução”, escreveu Belline, segundo as mensagens reproduzidas na documentação. Pouco depois, ele passou a comentar a redação de documentos do banco e sugerir mudanças para evitar, nas palavras atribuídas a ele, “ruídos desnecessários”.
Para a PF, a proximidade transformava os servidores em uma espécie de canal de aconselhamento especializado para o banqueiro. A unidade comandada por Belline e Paulo Sérgio era ligada à Diretoria de Fiscalização e participava diretamente de processos que envolviam o conglomerado Master.
Mensagens mostram revisão de documentos do banco
Em 27 de outubro de 2025, Vorcaro enviou ao grupo uma minuta intitulada “Ofício Banco Master ao Desup — atualização das ações” e pediu uma avaliação. Na sequência, Belline fez uma chamada de voz e, mais tarde, o banqueiro compartilhou uma nova versão do arquivo com a pergunta: “Por favor, vejam se atende”. O documento seria encaminhado ao departamento dirigido pelos próprios interlocutores.
Em outra conversa, de 25 de abril de 2025, Vorcaro pediu a Paulo Sérgio que analisasse uma resposta a um termo de comparecimento. O servidor sugeriu alterações pontuais, como substituir “captação de receitas” por “captação de recursos”, incluir menção ao controle ou à gestão pelo Banco de Brasília, o BRB, e corrigir uma data. Ao final, recomendou: “Importante protocolar rapidamente”.
PF aponta atuação além da função de fiscalização
A representação policial afirma que Belline revisava documentos de interesse do Master inclusive por iniciativa própria. A investigação também registra uma reunião dele com Vorcaro na residência do banqueiro em 14 de março de 2024.
Em abril daquele ano, Belline teria organizado um encontro com Vorcaro e Paulo Sérgio para tratar de uma “visão prospectiva e estratégica”. O banqueiro poderia escolher entre realizar a reunião na sede do Banco Central ou nas instalações do Master.
Na avaliação dos investigadores, os servidores agiam em diferentes ocasiões como “empregados” de Vorcaro, embora sua responsabilidade institucional fosse fiscalizar o banco. A PF afirma ainda que ambos recebiam vantagens em contrapartida, mas o material divulgado não detalha, no trecho analisado, a natureza de cada benefício.
Documentos foram liberados após decisão do STF
As informações constam de uma representação da Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal assinada em 27 de fevereiro de 2026. O documento reúne a interpretação dos investigadores sobre mensagens extraídas do celular de Vorcaro e registros do próprio Banco Central.
O conteúdo se tornou público em 10 de setembro, depois que o ministro André Mendonça retirou o sigilo de procedimentos relacionados ao Banco Master que tramitavam na corte. A divulgação permite identificar como eram tratadas internamente questões que envolviam a fiscalização e as dificuldades enfrentadas pelo conglomerado.
O que o caso significa para investidores e para o Master
A investigação ainda descreve suspeitas e interpretações da PF, e a divulgação das mensagens não representa, por si só, uma decisão definitiva sobre a responsabilidade dos envolvidos. O ponto central é a possível quebra da separação entre quem deveria fiscalizar o banco e quem buscava resolver seus problemas regulatórios.
O BRB aparece nas conversas porque se tornou parte importante da tentativa de encontrar uma saída para as dificuldades do Master. Em 28 de março de 2025, o banco anunciou um acordo para adquirir 58% do capital total da instituição de Vorcaro. Os próximos passos judiciais e eventuais medidas das autoridades serão relevantes para avaliar os efeitos sobre a governança, a supervisão bancária e a confiança no caso.
