Uma eventual reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva não levaria a um ajuste fiscal em seu quarto mandato, na avaliação de Alfredo Menezes, presidente e diretor de investimentos da Armor Capital. Apesar de projetar piora nas contas públicas, o gestor não prevê um cenário de turbulência cambial extrema: diz não acreditar que o dólar chegue a R$ 6. A leitura importa porque dúvidas sobre os gastos do governo podem afetar juros, inflação e o valor do real.
Pressão fiscal poderia se intensificar mais adiante
Menezes avalia que o quadro fiscal se deterioraria e que a inflação poderia subir, embora não necessariamente já no próximo ano: o gestor menciona 2028 ou 2029 como períodos em que a pressão poderia ficar mais forte. Ele compara o risco a um ambiente de dominância fiscal, no qual a preocupação com as contas públicas dificulta o controle da inflação e interfere na condução dos juros.
O gestor cita como referência a tensão de 2024, quando o dólar subiu e os juros avançaram em meio à frustração com um pacote de corte de gastos anunciado junto à proposta de isentar do Imposto de Renda quem recebe até R$ 5 mil. A comparação não significa que o mesmo movimento se repetirá: é o tipo de reação que, segundo ele, pode ocorrer se o mercado perder confiança na trajetória das contas.
Por que ele não espera dólar a R$ 6
Embora não espere um ajuste fiscal logo após uma eventual reeleição, Menezes acredita que, quando a situação apertar, o governo fará o que chama de “lição de casa”. Ele afirma já ter visto previsões de que o Brasil quebraria e diz que, em momentos de pressão, o país acabou tomando medidas para responder ao problema.
Na visão do gestor, a carga tributária já é elevada, o que limita o espaço para aumentar impostos. Por isso, um ajuste teria de ocorrer principalmente pelo lado das despesas públicas. Essa expectativa de reação ajuda a explicar por que ele vê risco de deterioração fiscal, mas não projeta o dólar em R$ 6.
Como a incerteza afeta as posições da gestora
Com a eleição ainda muito disputada e sem clareza sobre o próximo governo, a Armor prefere evitar apostas direcionais de longo prazo no Brasil até o primeiro turno. Menezes diz que, por enquanto, a gestora opera no day trade, com posições de curta duração, ou em estratégias long-short, que combinam a compra de um ativo com a venda de outro.
No país, as posições mencionadas envolvem arbitragem entre bancos, com diferenças de perspectiva sobre quais instituições poderiam ganhar mais produtividade com inteligência artificial. A gestora também diz ter cautela com crédito em bancos de varejo voltados às classes C e D, que, na avaliação de Menezes, podem sofrer mais com a inadimplência.
Juros e petróleo também entram no cenário global
Fora do Brasil, Menezes acompanha a disputa por recursos entre o governo americano e empresas de tecnologia que financiam investimentos em inteligência artificial. Na leitura dele, essa competição pode pressionar juros e crédito nos Estados Unidos e em outros países. A gestora mantém posições que se beneficiariam de juros americanos mais altos e avalia que esse movimento poderia desacelerar a economia mundial.
A Armor também está vendida em petróleo, apostando em queda de preço. Menezes considera que a oferta cresce mais do que a demanda, em parte pela substituição de combustíveis fósseis, e prevê barril a US$ 60 em 2027, caso a guerra no Irã termine. Ele pondera que a queda da commodity poderia enfraquecer o real, hoje, em sua avaliação, uma das moedas emergentes mais resilientes justamente por causa do petróleo.
O que acompanhar nos próximos meses
Para quem investe, consome ou trabalha, a avaliação de Menezes é um cenário, não uma certeza sobre o próximo governo ou sobre a cotação do dólar. Uma piora fiscal pode influenciar o custo de financiamento do Estado e pressionar os juros; se também enfraquecer o real, pode encarecer produtos importados e contribuir para a inflação.
Os próximos pontos de atenção são o resultado da eleição, as decisões sobre despesas públicas e a evolução dos juros e do petróleo no exterior. Menezes afirma que a Armor pretende definir aplicações brasileiras de prazo maior depois do primeiro turno. Até lá, a gestora diz manter exposição local limitada e concentrar posições em mercados internacionais.
Impacto para a sociedade
A avaliação sobre gastos públicos e câmbio importa porque uma piora fiscal pode pressionar os juros e encarecer o crédito, enquanto um real mais fraco pode elevar o custo de produtos importados. Menezes, porém, não prevê dólar a R$ 6 e acredita que o governo acabaria ajustando as contas quando a situação se agravasse.
