A análise de Thiago Salomão, fundador da Market Makers, indica que o ciclo de cortes da Selic pode ser mais limitado do que parte do mercado projeta. Em avaliação nesta terça-feira (11), ele afirma que o cenário continua pressionado, com a inflação distante do nível confortável e pouco espaço para uma queda relevante da taxa básica de juros.
Por que a inflação ainda trava os juros
Segundo Salomão, o atual patamar da inflação está alinhado ao tom adotado pelo Banco Central na ata do Copom. Para ele, “para criar uma expectativa de outros cortes de juros, ainda precisamos esperar uma queda ainda maior da inflação”.
Os preços de energia e petróleo aparecem como os principais pontos de atenção. Quando essas commodities sobem, o custo de produção e o transporte encarecem, o que se repassa aos preços dos alimentos, combustíveis e contas de luz. Esse efeito pressiona o IPCA e reduz o espaço para o BC afrouxar a política monetária sem riscos para a credibilidade do regime de metas.
Fiscal e eleições: o risco que não desaparece
Na avaliação do fundador da Market Makers, mesmo que a inflação dê sinais de melhora, as condições fiscais limitam qualquer redução mais forte da Selic. Um cenário de risco fiscal tende a elevar a percepção de risco do país, pressionar o câmbio e contaminar as expectativas de inflação no futuro.
O contexto eleitoral também entra na conta. Salomão afirma que a comunicação recente do Banco Central está “acertada” ao adotar uma postura cada vez mais dependente dos dados. A autoridade monetária deixou em aberto o que levará em consideração nas próximas reuniões, o que dá flexibilidade, mas também cria incerteza.
As declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em defesa de juros menores podem aumentar a pressão política sobre o BC. Mesmo assim, na visão do analista, a autoridade tem conseguido controlar as expectativas ao ancorar as decisões em indicadores econômicos, e não em discursos.
Para Salomão, manter os juros em níveis mais baixos dependeria de uma continuidade na condução da política econômica que ele considera improvável. Mesmo que o governo atual vença as eleições, seria preciso mudar a forma de gerir a economia para evitar o risco fiscal.
O que o rebaixamento do JP Morgan indica
Salomão também comentou a decisão do JP Morgan de rebaixar as ações brasileiras. Para ele, a mudança não surpreendeu o mercado, já que o banco passou a trabalhar com um cenário de juros elevados por um período prolongado.
A leitura é direta: se a Selic permanecer alta por mais tempo, o custo de capital das empresas sobe, o desconto aplicado aos lucros futuros aumenta e o apetite por ativos de risco, como ações da bolsa brasileira, diminui. Isso ajuda a explicar a pressão que o Ibovespa vem enfrentando, com a queda de 2% no movimento recente ligado a essas preocupações.
O que esperar da próxima reunião do Copom
O analista mantém a visão de que o BC deixou em aberto a possibilidade de mais um corte, mas a redução, se vier, não deve ser significativa. A continuidade do ciclo de quedas dependerá de uma desaceleração mais forte da inflação e da trajetória da política econômica após as eleições.
Para quem acompanha o mercado, a mensagem é de cautela: os juros podem cair, mas o espaço para quedas relevantes depende de um ajuste que não está garantido.
Na prática, isso significa que o crédito deve continuar caro para consumidores e empresas, e a renda fixa tende a seguir oferecendo retornos atrativos em comparação com a bolsa. O próximo Copom será decisivo para calibrar a aposta do mercado.
Impacto para a sociedade
Se a Selic cair menos do que o esperado, o custo do crédito e o aperto financeiro para famílias e empresas devem continuar elevados. Isso tende a segurar o consumo e o investimento, mantendo a economia em ritmo fraco. Para quem tem aplicações, o cenário pode preservar a atratividade da renda fixa por mais tempo, em um ambiente de incerteza sobre o rumo da política monetária.
