Mais da metade dos trabalhadores brasileiros, 53%, não consegue pagar todas as contas do mês apenas com o salário, segundo pesquisa divulgada pela Serasa Experian nesta terça-feira (18). O levantamento inclui profissionais contratados pelo regime CLT e pessoas jurídicas (PJs) e mostra que a dificuldade permanece praticamente no mesmo nível de 2025, evidenciando uma pressão persistente sobre o orçamento das famílias.

Quase metade precisa de renda ou crédito extra

Entre os trabalhadores que não conseguem fechar o mês com a renda principal, 47% recorrem a alternativas adicionais para manter as contas em dia. As opções citadas incluem trabalhos extras, horas adicionais, uso do cartão de crédito e contratação de empréstimos.

Outros 6% terminam o mês sem dinheiro suficiente e também não utilizam nenhuma alternativa. Na prática, esse grupo fica inadimplente com algum compromisso mensal. O resultado é uma combinação de menor capacidade de poupança, dependência de crédito e maior vulnerabilidade a imprevistos.

Alimentação e contas da casa são os maiores pesos

Entre os trabalhadores que relatam dificuldades, a alimentação é o principal gasto a comprometer o orçamento: 78% das famílias apontam esse item como uma das despesas mais pesadas. O dado aparece mesmo após a desaceleração recente da inflação de alimentos.

Em julho, a inflação de alimentos e bebidas medida pelo IPCA, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, desacelerou 0,67%. Em 12 meses até o período, a alta acumulada ficou em 3,40%. Ainda assim, como a alimentação é uma despesa essencial, mesmo aumentos menores continuam afetando diretamente a renda disponível.

Despesas fixas reduzem espaço para imprevistos

As contas básicas da residência, como luz, água e gás, foram citadas por 72% dos entrevistados como um peso relevante no orçamento. Em seguida aparecem os financiamentos de imóveis, veículos e outras modalidades, mencionados por 44% dos trabalhadores.

A estrutura dos gastos ajuda a explicar por que a dificuldade não é resolvida apenas com cortes pontuais. De um lado, estão despesas indispensáveis do cotidiano; de outro, compromissos financeiros já assumidos. Quando quase toda a renda é consumida por essas obrigações, sobra pouco espaço para formar uma reserva ou absorver despesas inesperadas.

Renda não acompanha o custo de vida

O levantamento de 2026 registrou 53% de trabalhadores sem condições de pagar tudo apenas com o salário, ante 54% na pesquisa de 2025. A pequena diferença indica estabilidade do problema, e não uma mudança significativa na situação financeira das famílias.

Esse cenário ocorre em um país no qual cerca de 68% dos brasileiros recebem até dois salários mínimos, o equivalente a R$ 3.242, segundo o IBGE. Para Nathalia Arcuri, fundadora da Me Poupe!, existe uma distância entre a renda dos trabalhadores e o custo de vida, que dificulta a organização financeira mesmo em um ambiente de baixo desemprego.

O que o resultado indica para trabalhadores e consumidores

Para quem trabalha, o principal efeito é a necessidade de complementar a renda ou ampliar o uso de crédito para despesas recorrentes. O cartão e os empréstimos podem evitar um atraso imediato, mas transformam parte do orçamento dos meses seguintes em parcelas e juros, reduzindo ainda mais a renda disponível.

Para consumidores e investidores, o dado reforça a importância de observar não apenas a inflação média, mas também o peso dos gastos essenciais e das dívidas no orçamento. A pesquisa sugere que a pressão financeira continua estrutural: enquanto a renda não acompanhar o custo das despesas básicas, a formação de reservas e a capacidade de lidar com emergências permanecerão limitadas.