O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu fazer o possível para reduzir os juros, ouviu do banqueiro André Esteves que o país precisa ajustar as contas públicas e negou ter sido traído pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. As declarações ocorreram em um jantar com 16 empresários no Palácio da Alvorada, na segunda-feira (31), em uma tentativa de aproximar o governo do setor produtivo.

Lula diz estar irritado com juros, mas nega conflito com Galípolo

Lula afirmou que não houve “punhalada nas costas” de Galípolo. Ao mesmo tempo, disse estar “puto” com o presidente do BC por causa dos juros altos. A distinção é relevante porque a autoridade monetária tem autonomia para definir a política de juros, enquanto o governo pode defender publicamente uma redução da taxa.

O presidente declarou entender o que Galípolo precisa fazer e afirmou que respeitará o mandato do chefe do BC. Também citou Henrique Meirelles, que comandou a instituição durante seus dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2010, como exemplo de uma relação institucional preservada.

Empresários defendem ajuste fiscal antes da queda dos juros

O principal recado empresarial veio de André Esteves, fundador e presidente do conselho do BTG Pactual. Ele defendeu juros menores, mas disse que o caminho passa pelo ajuste da economia e pela redução do déficit público, isto é, do resultado negativo das contas do governo.

Na prática, contas públicas mais equilibradas podem reduzir a percepção de risco sobre o país e a pressão para que o Banco Central mantenha os juros elevados. Com menor preocupação fiscal, também tende a haver menos competição entre o governo e empresas pela oferta de crédito. O efeito, porém, depende da execução das medidas e da evolução da inflação.

Governo rebate críticas sobre a situação das contas

Lula e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmaram ter recebido um país em situação ruim e reclamaram dos gastos com precatórios, dívidas judiciais que precisam ser pagas pelo poder público. Os dois sustentaram que, apesar das dificuldades herdadas, o resultado das contas públicas não seria ruim.

A avaliação contrasta com a cobrança por maior disciplina fiscal feita durante o jantar. Para os empresários, a redução sustentável dos juros depende não apenas da vontade política, mas também da confiança de que o governo conseguirá controlar despesas e reduzir o déficit.

Jantar reuniu governo, bancos e grandes empresas

O encontro durou cerca de 2 horas e 40 minutos e foi organizado pelo presidente do PT, Edinho Silva. Além de Lula e Janja da Silva, participaram o vice-presidente Geraldo Alckmin, ministros da Fazenda, do Planejamento e da Indústria, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, e os presidentes do Banco do Brasil e da Caixa.

Também estiveram presentes executivos de instituições financeiras e empresas como BTG Pactual, Bradesco, Cosan, Coteminas, J&F e Amil. Esteves mencionou ainda um encontro recente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e afirmou ter ouvido elogios do republicano a Lula.

O que a promessa muda para investidores e consumidores

Uma eventual queda da Selic, a taxa básica de juros, tende a reduzir o rendimento de novas aplicações de renda fixa atreladas aos juros. Em contrapartida, pode baratear empréstimos e financiamentos, estimular o consumo e melhorar as condições para empresas investirem e ampliarem suas operações.

Para a Bolsa, juros menores podem tornar ações relativamente mais atrativas diante da renda fixa, mas o movimento não é automático: inflação, situação fiscal e resultados das empresas também influenciam os preços. O próximo passo será acompanhar se o governo apresentará medidas capazes de responder à cobrança por ajuste fiscal e como o BC avaliará esse cenário em suas decisões.

Impacto para a sociedade

A taxa de juros influencia o custo de empréstimos, financiamentos e compras parceladas, além do rendimento de aplicações de renda fixa. Um ajuste fiscal mais consistente pode ajudar a reduzir a pressão sobre os juros, mas cortes dependem das decisões do Banco Central e da trajetória da inflação.