Lucros impulsionados pela inteligência artificial podem compensar, ao menos em parte, o efeito negativo do aperto monetário do Federal Reserve sobre as bolsas americanas, avaliam analistas. A tese ajuda a explicar por que a confiança em ações de tecnologia permanece mesmo com juros em alta e com o S&P 500 pressionado em setembro.
Por que os lucros de tecnologia ganharam força
O argumento central está nos balanços. Nos últimos três meses, o setor de tecnologia respondeu por 64% do aumento das projeções de lucro das empresas americanas, de acordo com uma análise do UBS divulgada em 17 de setembro. A expectativa é de crescimento de 45% para as companhias do segmento, mais que o dobro da média do mercado.
Esse avanço pode reduzir o impacto dos juros elevados porque lucros maiores aumentam o valor econômico das empresas e sustentam suas ações. Em geral, o aperto monetário diminui o preço dos ativos ao elevar o retorno oferecido por aplicações de renda fixa e encarecer o crédito. Quando o crescimento dos resultados é suficientemente forte, porém, parte dessa pressão pode ser absorvida.
Fed mais duro aumenta a pressão sobre as bolsas
O pano de fundo continua desfavorável. O presidente do Fed, Kevin Warsh, reforçou as preocupações com a inflação, enquanto a maioria dos dirigentes da instituição projeta uma nova alta dos juros ainda neste ano.
O mercado também passou a precificar quase quatro altas nos próximos 12 meses. Juros maiores elevam a taxa usada para calcular o valor presente dos lucros futuros, o que costuma atingir principalmente empresas de tecnologia, cujos resultados esperados estão mais distantes no tempo. Por isso, a resistência das ações de IA depende da continuidade do crescimento dos lucros.
O que os estrategistas projetam para o S&P 500
O Goldman Sachs considera exagerados os temores de uma “bolha de lucros”. O banco prevê uma desaceleração gradual dos resultados, sem colapso, e estima que o S&P 500 pode subir 14% em 12 meses, para cerca de 8.700 pontos.
O banco também observa que os lucros do índice cresceram aproximadamente 30% nos dois primeiros trimestres. Já o UBS lembra que, desde 1954, o S&P 500 avançou, em média, 10,8% no ano seguinte à primeira alta de juros. Para a instituição, o ajuste provocado pelo ciclo monetário pode estar em grande parte incorporado aos preços.
Concentração em poucas empresas aumenta o risco
O ciclo de lucros ainda está concentrado nos principais beneficiários dos investimentos em inteligência artificial, sem sinais amplos de que o desempenho tenha se espalhado para outros setores. O Goldman espera que esse impulso perca força em 2027 e projeta crescimento de 11% nos lucros naquele ano, abaixo dos 19% previstos pelo consenso.
O posicionamento dos investidores também permanece otimista demais, segundo estrategistas do Bank of America. Scott Rubner, da Citadel Securities, avalia que a redução das posições e o pessimismo em relação à IA podem se inverter a partir de outubro, primeiro na tecnologia e depois no restante do mercado. Ainda assim, ele admite que as ações podem cair até o fim de setembro, quando a oferta de papéis continua superior à demanda.
Como o tema chega ao investidor brasileiro
No Brasil, a exposição ao setor ocorre principalmente por BDRs, recibos negociados na B3 que representam ações ou fundos listados no exterior. Entre os papéis citados em carteiras recomendadas estão Micron, Alphabet, Amazon, Microsoft e Nvidia. Também existem BDRs de ETFs, como o BAIQ39, ligado a empresas beneficiadas pela IA.
Outra forma de acompanhar a cadeia global de chips é por meio de BDRs que replicam bolsas de Taiwan e da Coreia do Sul, mercados com participação relevante de empresas como TSMC, Samsung e SK Hynix. Esses ativos também carregam exposição ao dólar e aos riscos dos mercados internacionais. Para os próximos meses, o ponto decisivo será saber se o crescimento dos lucros continuará compensando juros altos e a concentração das apostas em poucas companhias.
