Uma liquidação global nos mercados de títulos alcançou os Estados Unidos, o Japão e a Europa nesta terça-feira (18), levando o rendimento do título americano de 30 anos ao maior nível desde 2007, em torno de 5,32%. O movimento combina novas preocupações com a inflação, após o petróleo voltar a superar US$ 90 por barril, e dúvidas persistentes sobre déficits públicos e a capacidade dos governos de absorver o aumento da dívida.

Juros de longo prazo sobem nas principais economias

O rendimento é a taxa de retorno exigida pelo investidor para comprar um título. Quando essa taxa sobe, o preço do papel cai. O movimento desta terça-feira mostra que os investidores estão cobrando uma remuneração maior para manter títulos de vencimento longo, em um ambiente de inflação mais resistente e maior oferta de dívida.

Nos Estados Unidos, o rendimento do Treasury de 30 anos avançou quase 40 pontos-base no último mês, a maior alta mensal desde dezembro de 2024. O nível próximo de 5,32% é especialmente relevante porque os Treasuries funcionam como referência para o custo de financiamento de empresas, governos e consumidores em vários países.

Inflação e petróleo aumentam a pressão sobre os títulos

A alta do petróleo voltou a alimentar o temor de inflação, enquanto as esperanças de um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã diminuíram. Combustíveis mais caros podem elevar custos de transporte e produção e dificultar a tarefa dos bancos centrais, que precisam equilibrar o combate à inflação com o risco de desacelerar a economia.

No Japão, o rendimento do título de dez anos subiu para pouco menos de 3%, o maior nível em três décadas. A combinação de inflação e expectativa de que o Banco do Japão eleve os juros já em setembro também levou o rendimento do papel japonês de 30 anos a superar 4%.

Europa acompanha a piora no mercado de dívida

O movimento também atingiu a Europa. O rendimento do título alemão de dez anos, o Bund, chegou ao maior patamar desde 2011. Na França, o retorno do título equivalente alcançou o nível mais elevado desde 2009.

A pressão simultânea em diferentes mercados sugere que o problema não está restrito à política fiscal americana. Déficits crescentes, necessidade de novas emissões e a percepção de que os bancos centrais podem manter juros altos por mais tempo aumentam o chamado prêmio de prazo, que é a remuneração adicional exigida para carregar um título por muitos anos.

Investidores estrangeiros reduzem exposição aos Treasuries

Os dados divulgados pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos mostraram que as posições estrangeiras em Treasuries caíram em junho, com redução das carteiras do Japão, do Reino Unido e da China. O Japão é o maior detentor estrangeiro de títulos americanos.

A alta dos juros no próprio Japão começa a tornar os títulos domésticos mais competitivos para os investidores japoneses, tradicionalmente grandes compradores de dívida americana. Isso não significa abandono dos Treasuries, mas reduz a certeza de que a demanda estrangeira absorverá novas emissões americanas pelos mesmos rendimentos praticados anteriormente.

O que o movimento significa para investidores e consumidores

As grandes empresas de tecnologia voltadas à inteligência artificial também intensificaram as emissões de dívida neste ano, aumentando a disputa por capital. Somada aos déficits públicos e às dúvidas sobre a comunicação do Federal Reserve sob Kevin Warsh, essa competição contribuiu para a venda de títulos.

Para quem investe, juros longos mais altos tendem a pressionar os preços de títulos já emitidos e podem aumentar a volatilidade de ações, especialmente as avaliadas com base em lucros esperados para muitos anos. Para consumidores e empresas, o efeito é o encarecimento das referências de crédito e financiamento. Os próximos sinais a acompanhar são a trajetória do petróleo, a inflação e a demanda pelos leilões de dívida dos Estados Unidos.

Impacto para a sociedade

A alta dos juros dos títulos públicos eleva o custo de financiamento de empresas, governos e consumidores, inclusive por meio de empréstimos e financiamentos mais caros. A retomada do petróleo acima de US$ 90 também aumenta o risco de pressão sobre a inflação, o que pode afetar o preço de combustíveis e de outros produtos. Para o trabalhador, o efeito tende a aparecer de forma indireta, caso juros elevados reduzam investimentos, consumo e contratação.