Quem vencer o segundo turno presidencial de 25 de outubro terá de enfrentar um desafio que, para a Kinea, pesa mais para os mercados do que o nome do eleito: equilibrar as contas públicas sem provocar novos choques na atividade econômica ou nos juros. A gestora calcula que seria necessário um resultado primário próximo de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) para estabilizar a dívida e criar condições para uma queda mais consistente dos juros reais.

O ajuste fiscal será o teste de confiança do novo governo

Na avaliação da Kinea, o mercado não considera encerrada a disputa econômica com a votação. A confiança dependerá do plano que o vencedor apresentar para conter o desequilíbrio fiscal e estabilizar a trajetória da dívida pública. “A eleição não se encerra em outubro: encerra-se quando o vencedor disser, com números, como pretende fechar essa conta”, afirma a gestora.

O ponto de partida é apertado: a proposta de Orçamento para 2027 enviada ao Congresso prevê apenas um superávit primário simbólico, enquanto a dívida bruta permanece em patamar elevado, entre os maiores já registrados fora da pandemia. O resultado primário é a diferença entre receitas e despesas do governo antes do pagamento dos juros da dívida.

Congresso reduz a margem de manobra nas despesas

Alcançar o ajuste não depende apenas do tamanho das medidas. A Kinea destaca que uma parte expressiva dos gastos discricionários — despesas que podem ser alteradas pelo governo, ao contrário de obrigações legais — já está comprometida com decisões do Congresso. Com isso, o Executivo pode responder pelo resultado fiscal sem controlar plenamente a despesa.

O calendário também pressiona: para produzir efeitos relevantes nas contas de 2027, as medidas precisam ser aprovadas ainda no primeiro semestre daquele ano. Por isso, a gestora considera que as negociações do presidente eleito com o Legislativo terão de começar antes da posse, em vez de esperar que o novo governo esteja plenamente instalado.

Cenário-base prevê pacote de 1,5% do PIB

Na projeção central da Kinea, o próximo governo anuncia no início do mandato um pacote fiscal equivalente a cerca de 1,5% do PIB. Mesmo com essa resposta, a economia desaceleraria: a gestora estima crescimento de 1% em 2027, inflação de 4,7% e Selic de 12,5% ao fim do ano.

Essas projeções não significam que a taxa de juros cairá automaticamente. Um plano fiscal crível pode reduzir a percepção de risco e ajudar a abrir espaço para juros menores; já a falta de medidas robustas ou iniciativas vistas como populistas pode piorar as expectativas e dificultar a continuidade dos cortes. A Selic afeta o custo de empréstimos e financiamentos e também influencia a remuneração de aplicações de renda fixa.

Juros globais altos adicionam pressão ao cenário

A Kinea também aponta um ambiente internacional menos favorável. Nos Estados Unidos, dados fortes de emprego, inflação acima das expectativas e petróleo em alta levaram o Federal Reserve a elevar os juros pela primeira vez desde 2023. A gestora diz que novas altas dependerão da evolução dos indicadores econômicos.

Após a decisão, os títulos de dez anos do Tesouro americano ultrapassaram rendimento de 5%, nível não visto havia cerca de duas décadas. Nesse cenário, a Kinea mantém posição favorável ao dólar ante moedas europeias, apoiada na avaliação de que a economia dos EUA é mais resiliente que a Europa, cujo crescimento é mais fraco.

O que acompanhar até as primeiras medidas

Para quem investe, consome ou trabalha, o ponto decisivo será a combinação entre o tamanho do ajuste anunciado, sua aprovação no Congresso e o efeito sobre a dívida. As projeções para crescimento, inflação e juros em 2027 dependem desse caminho; portanto, são cenários condicionais, não resultados garantidos.

O próximo sinal concreto será o plano do vencedor para fechar as contas, com medidas e números que convençam o Legislativo e os agentes econômicos. A Kinea resume a prioridade como atacar o fiscal primeiro: na avaliação da gestora, isso ajudaria o governo a conduzir os demais temas sem agravar a incerteza sobre juros e atividade.

Impacto para a sociedade

O tamanho do ajuste fiscal pode influenciar os juros, o custo do crédito e o ritmo da economia, com efeitos sobre financiamentos, consumo e atividade das empresas. Também está em jogo a capacidade do governo de manter despesas e serviços públicos sem ampliar o desequilíbrio das contas.