O juro do Tesouro IPCA+ renovou nesta sexta-feira (4) o menor nível desde maio, mesmo após o payroll dos Estados Unidos superar amplamente as previsões. O Tesouro IPCA+ 2032 caiu de 7,94% para 7,81% ao ano, às 12h07, enquanto investidores deram mais peso à expectativa de uma nova redução da Selic no Brasil do que ao dado forte de emprego americano.

Tesouro IPCA+ lidera queda entre os títulos públicos

O recuo de 13 pontos-base — ou 0,13 ponto percentual — levou a taxa do Tesouro IPCA+ 2032 ao menor patamar desde 29 de maio. Esse título remunera o IPCA acumulado no período mais uma taxa fixa e, por isso, é usado como referência para o custo de proteção contra a inflação no mercado.

Nos papéis com juros semestrais, o Tesouro IPCA+ 2037 passou de 7,60% para 7,51% ao ano, enquanto o vencimento de 2040 caiu de 7,39% para 7,30%. Os títulos mais longos também recuaram: o IPCA+ 2050 era negociado a 7,22% e o IPCA+ 2060, a 7,27%.

Payroll forte aumenta pressão sobre os juros nos EUA

A economia americana criou 162 mil vagas em agosto, quase o triplo das 56 mil esperadas por economistas consultados pela Reuters e o melhor resultado desde março. A taxa de desemprego ficou em 4,1%, estável e em linha com as projeções, enquanto os dados de junho e julho foram revisados para cima em 55 mil vagas no total.

O resultado reduziu a expectativa de uma flexibilização rápida da política monetária americana. Com o mercado de trabalho ainda sólido, cresceram as apostas em juros mais altos pelo Federal Reserve na reunião deste mês, e as taxas dos títulos do Tesouro dos EUA de curto prazo avançaram. Para Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, o dado reforça que o emprego continua firme, sem sinal claro de deterioração.

Expectativa de corte da Selic domina a curva brasileira

No Brasil, o impacto do payroll ficou concentrado nos vencimentos mais curtos dos títulos prefixados. A avaliação predominante foi de que a desaceleração doméstica pode abrir espaço para um novo corte de 0,25 ponto percentual da Selic, após sinais de enfraquecimento da economia e a produção industrial fraca em julho.

Os prefixados tiveram baixa mais moderada. O Tesouro Prefixado 2029 passou de 13,91% para 13,88% ao ano, e o Prefixado 2032 caiu de 14,29% para 14,23%. Nos papéis com juros semestrais, a taxa do vencimento de 2037 recuou de 14,35% para 14,29%.

Maior oferta do Tesouro ajuda a aliviar as taxas

Outro fator favorável foi a maior facilidade do governo para vender títulos no mercado. O Tesouro Nacional emitiu R$ 191,9 bilhões em agosto, o maior volume mensal de 2026, com aumento da participação de prefixados e de títulos atrelados à inflação.

Para Sérgio Goldenstein, fundador da Eytse Estratégia, o movimento indica que o Tesouro aproveitou momentos melhores do mercado para recompor parte das emissões com maior exposição às oscilações das taxas, sem abandonar a regularidade dos leilões.

O que observar no mercado e no bolso

A queda das taxas pode elevar o preço dos títulos já emitidos, mas reduz a remuneração oferecida em novas compras. Para famílias e empresas, uma eventual redução da Selic tende a baratear o crédito gradualmente, embora também diminua o retorno de investimentos atrelados diretamente à taxa básica. Na bolsa, juros menores costumam favorecer ativos de risco, mas o Ibovespa perdeu os 184 mil pontos no pregão, pressionado também pelo ambiente político e pelo dólar, que subiu a R$ 5,13.

O próximo passo será acompanhar a comunicação do Banco Central sobre a atividade doméstica e a inflação, além da reação do Federal Reserve ao mercado de trabalho americano. As taxas do Tesouro podem continuar respondendo à combinação entre a perspectiva para a Selic, o cenário fiscal e o comportamento dos juros nos Estados Unidos.

Impacto para a sociedade

A expectativa de queda da Selic influencia o custo de empréstimos, financiamentos e outras formas de crédito para famílias e empresas. Se o Banco Central reduzir os juros, a renda fixa pós-fixada tende a oferecer retornos menores, enquanto a atividade econômica pode receber estímulo com o crédito mais barato. O payroll americano também pode afetar o Brasil ao alterar as decisões do Federal Reserve e, indiretamente, o câmbio e a inflação.